Documento Base

porMatheus

Documento Base

Documento Base: Documento Base - ABHP (Versão em PDF)

 

DOCUMENTO BASE DO CONGRESSO NACIONAL

 

DE HOMEOPATIA POPULAR

 

 

“A primeira tarefa daquele que cura é por isso mesmo política: a luta contra a doença deverá começar pela guerra contra os maus governos; o homem só será definitiva e totalmente curado se antes for libertado” (Lanthenas)

 

 

 

 

 

 

Homeopatia Popular e solidariedade planetária: Uma nova saúde é possível!

 

 

 

A mesma homeopatia com outra identidade e coração: jeito de povo em luta solidária

pelo inalienável direito à Terra, à Justiça, à Liberdade e Paz!

 

 

 

 

 

 

 

 

TEXTO – BASE

 

 

 

 

 

 

A B H P

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HOMEOPATIA POPULAR


 

Saúde é Luta! (Dr. José Renan Esquivel)


ABHP – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HOMEOPATIA POPULAR

 

Rua Amâncio Pereira de Jesus, 254 – Bairro Carumbé 78050-660-Cuiabá-MT

 

Fone (065) 3653-3710

 

 

Cartaz do Congresso: Cid Wagner Cândido Agra de Oliveira

 

 

Produção do documento: Educadores populares presentes no seminário “Tecendo redes” realizado em Fevereiro/2007.

 

Redação : Luiz Augusto Passos e Edna Fernandes do Amaral.

 

 

Revisão: Dionéia da Silva Trindade

 

 

Editoração: Edna Fernandes do Amaral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ABHP – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HOMEOPATIA POPULAR

 

HOMEOPATIA POPULAR E SOLIDARIEDADE PLANETÁRIA

 

UMA NOVA SAÚDE É POSSÍVEL

 

Texto-base/ABHP – Cuiabá: 1996 (II Congresso de Homeopatia Popular): 43p.

 

1.Homeopatia popular 2.Cidadania 3.Solidariedade planetária 4. Saúde popular 5. Educadores populares 6. Associação Brasileira de Homeopatia Popular.

 

Sumário

 

 

 

Introdução……………………………………………………………………………… 7
I – Nasce um projeto de Educação Popular em Saúde……………………. 8
1. Da Pastoral de Saúde Popular da Igreja Nª. Srª. do Rosário e
São Benedito ao IPESP…………………………………………………………………………. 8
2. Uma Associação que nasce da demanda de educadores
populares como espaço de exercício de cidadania………………………………………. 9
3. A homeopatia como instrumento de transformação social…………………………… 10
4. A missão da ABHP é tornar-se espaço dialógico de construção
e socialização de conhecimentos para a educação popular em saúde. ……………. 10
5. Estrutura e funcionamento que permite a realização de sua missão……………….. 11
6. A diversidade da atuação no meio popular: uma experiência
de multiplicação e conexões de saberes..………………………………………………….. 12
7. De que vive a ABHP?…………………………………………………………………………… 12
II. O(a)s educadore(a)s em Saúde da Homeopatia Popular…………….. 13
8. Perfil do(a)s educadore(a)s.……………………………………………………………………. 13
9. A quem se destina as ações destes educadore(a)s?……………………………………….. 13
10. Quais as razões que sustentam a prática do(a)s
educadore(a)s de Saúde da Homeopatia Popular…………………………………….. 14
11. Os sócios da ABHP em outros Países…………………………………………………….. 15
III. Orientação teórico-metodológica da Associação……………………… 16
12. diretrizes de ações .…………………………………………………………………………. 16
13. Identidade da ABHP………………………………………………………………………….. 18
IV -A Homeopatia na ABHP : possibilidade de uma
concepção dialética de saúde-doença………………………………………….. 25
14. A concepção de saúde-doença do IPESP/ABHP:
Saúde não bem estar, saúde é luta!…………………………………………………………. 25
15. Saúde-doença; morte-vida fluxo natural da vida………………………………………. 26
17. A Homeopatia de Hahnemann e o conceito de pessoa humana………………….. 27
18. A teoria Homeopática não se prende aos parâmetros da
Cientificidade clássica. ……………………………………………………………………….. 29
19. A opção sim, exclusão não……………………………………………………………………. 30
20. Por que a Homeopatia na ABHP se constitui num
instrumento de transformação?……………………………………………………………. 31

 

V – Popularização da Homeopatia: a luta continua……………………………….. 35

 

  1. Homeopatia uma memória garantida pela resistência de um povo……………… 35

 

  1. A homeopatia Hahnemanniana: da ‘especialidade’ a um

 

serviço de atenção básica na saúde pública…………………………………………….. 35

 

  1. Paradigma contemporâneo: uma visão holística na ABHP…………………………. 37

 

  1. Paradigma Hahnemanniano……………………………………………………………………….. 38

 

  1. A homeopatia que fazemos é em parte igual. e em parte diferente..……………. 38

 

  1. A homeopatia popular não carece de protocolos necessários

 

para uma Homeopatia oficial.……………………………………………………………………. 39

 

  1. A Homeopatia Popular, nem melhor nem pior …

 

É uma “outra” homeopatia……………………………………………………………………….. 40

 

  1. A legitimação do trabalho dos agentes vem do próprio povo e do estatuto ético de buscar saúde e vida como direito

 

subjetivo constitucional…………………………………………………………………………… 40

 

  1. Ao povo: Homeopatia popular ou homeopatia nenhuma!

 

A luta continua. .……………………………………………………………………………………… 41

 

  1. A justa e necessária parceria da Homeopatia popular e a

 

rede pública de serviços de saúde……………………………………………………………. 42

 

  1. Para os setores populares Saúde não é apenas fruto de tecnologia

 

e sim inter-relação com pessoas, saberes e outras práticas………………………. 42

 

  1. Lutamos pela complementaridade e integralidade na saúde

 

pública: todos somos imprescindíveis..……………………………………………………. 43

 

  1. Não estamos sós. Nossa causa é a causa de um povo………………………………. 44

 

VI – O Congresso e a mudança de paradigmas………………………………………. 45

 

  1. Possibilidades e limites da mudança de paradigmas…………………………………… 45

 

  1. O congresso de Homeopatia Popular neste milênio…………………………………… 46

 

Considerações Finais………………………………………………………………………………………. 47

 

  1. O futuro da homeopatia popular.……………………………………………………………….. 47

 

  1. Homeopatia Popular e solidariedade planetária: uma nova saúde é possível! 47

 

  1. A Homeopatia Popular é mesma homeopatia com um coração diferente!…… 48

 

Acerca do conceito Solidariedade Planetária………………………………………….. 49


A B H P – Documento Base •

 

Introdução

 

 

 

 

A Associação Brasileira de Homeopatia Popular (ABHP) responsável pela or-ganização do Segundo Congresso Brasileiro de Homeopatia Popular quer refletir sobre o significado deste momento, em nossa história particular e na atual conjuntura do País e da América Latina, contribuindo com o debate democrático. Chegamos a um momento intenso e significativo de nossa caminhada, temos motivos e temas para celebrar e aprofundar a partir de nosso congresso. As transformações sócio-políticas, que a todo(a)s atingem, suscitam a emergência de uma tomada de consciência e de ações solidárias que ao mesmo mobilizem e delimitem nossos esforços e trabalhos de organização. Faremos, pois, um pequeno percurso neste documento-base expondo o que é a ABHP, quem são os Educadores populares de Homeopatia, o significado do uso e popularização da Homeopatia, o significado do Congresso, especialmente na atual conjuntura na qual tivemos aprovada a portaria nº 971 de maio de 2006 que possibilita a inserção de práticas complementares no SUS; e, por fim, uma breve conclusão. O objetivo fundamental que nos une é celebrar vitórias, escolher nossas bandeiras de luta, mobilizar os congressistas e a sociedade em geral envolvida por nossa ação educativa a marcar presença transformadora no nosso tempo. Ninguém pode se furtar à respon-sabilidade que tem por sua própria humanidade e por todas as outras, nem de exercer a cidadania que por direito nos cabe: olhar o passado, descortinar melhores caminhos no presente com vistas a um futuro melhor onde descubramos como cidadão da terra a missão de construir uma nova saúde, mediante a construção de nossa solidariedade planetária.

 

  • Documento Base – A B H P

 

I – Nasce um projeto de Educação Popular em Saúde

 

 

 

 

  1. Da Pastoral de Saúde Popular da Igreja Nª. Srª. do Rosário e São Benedito ao IPESP

 

O Instituto Pastoral de Educação em Saúde (IPESP), conforme Documento Base (1996), desde a sua origem se propunha a:

 

[…] acolher propostas, de grupos diferenciados, referentes à saúde, desde que tenham como premissa básica a cidadania e a responsa-bilidade individual e coletiva, de todos e de cada um(a), na im-plementação de direitos sociais, que permitam ultrapassar os limites desumanos e cruéis mantidos no atual modelo econômico e forma de organização político-social no Brasil […] com vistas à luta pela Vida e Cidadania.” (IPESP: Texto-Base, 1996, p.5, grifos do autor)

 

Este movimento social de Educação Popular, que se institucionalizou como

 

Instituto Pastoral de Educação em Saúde Popular – IPESP nascera em 1980 de ações re-alizadas por algumas pessoas junto a grupos e comunidades de base, em Cuiabá, Mato Grosso, no território da Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. A idéia motivadora naquele momento era resgatar e valorizar o conhecimento popular existen-te nas comunidades da paróquia e contribuir e apoiar a organização da comunidade na luta por seus direitos de acesso à saúde e à vida. O trabalho iniciado se amplia na Campanha da Fraternidade de 1981, quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), naquele ano, escolhe o tema “Saúde Para Todos”. A Pastoral de Saúde Popular da Igreja do Rosário passa a integrar o Movimento Popular de Saúde – MOPS, naquele momento, em articulação nacional.

 

O projeto se define na relação com as comunidades e centra suas ações es-pecialmente na Educação em Saúde. Nessa perspectiva focaliza suas ações em torno da: a) formação de lideranças comunitárias, resgate e valorização do conhecimento popular em saúde e, b) produção coletiva e circulação de conhecimentos novos no meio popular. As ações da pastoral da saúde vão ganhando reconhecimento e se am-pliam no Estado de Mato Grosso, e para além dele. Houve uma reorganização in-terna da Paróquia do Rosário, e em vistas de maior leveza institucional e demanda de articulação mais ampla, foi criada uma organização independente juridicamente da Paróquia, porém não desvinculada que conforme as peculiaridades de suas ações recebeu a denominação de o Instituto Pastoral de Educação em Saúde Popular (IPESP).

 

A B H P – Documento Base •

 

Essa organização passa a ser definida na época, por seus membros, como organismo subsidiário de apoio e assessoria a grupos populares, especialmente os grupos ligados à saúde e educação. Por esse seu caráter filiou-se à Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG). Avaliada e replanejada, permanentemente, de forma coletiva, a organização vai ganhando reconhecimento nacional e culmina com a criação da Associação Brasileira de Homeopatia Popular – ABHP, em 1996, por ocasião da rea-lização do seu primeiro congresso nacional que foi chamado: 1º Congresso Brasileiro de Homeopatia Popular ; sediado nas dependências da UFMT, com apoio do Instituto de Saúde Coletiva e da própria Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso.

 

 

  1. Uma Associação que nasce da demanda de educadores populares como es-paço de exercício de cidadania.

 

Nasce assim: a ABHP em agosto de 1996, com 250 sócios fundadores presen-tes no Congresso, representantes de 12 estados brasileiros que se fizeram presentes. A Associação originou-se da necessidade sentida pelos agentes populares de saúde, de se criar um órgão que os representasse e que pudesse dar continuidade à promoção da homeopatia popular mediante estudos e intercâmbio das práticas alternativas correla-cionadas. Incluía-se aí a proposição da fiscalização de políticas públicas de saúde, bem como a implementação de leis e normas que garantissem o uso e a aplicação da home-opatia por terapeutas naturistas e agentes populares, como responsabilidade alicerçada no direito subjetivo de todos e todas de garantir a saúde e a vida. A essa prática temos chamado de direito popular de uso da homeopatia. A ABHP constitui-se, portanto, num espaço de exercício de cidadania, expressão de autonomia e emancipação procla-mada como direito universal a todo ser humano. Hoje (2007) integram a Associação 1057 sócios, oriundos de 20 Estados da Federação, bem como sócios de outros Países (África, Paraguai, Bolívia, Colômbia e Portugal) . Em sua maioria, os sócios são re-presentantes de movimentos populares, associações de mulheres, de trabalhadores e de pastorais das igrejas católica, evangélica, anglicana, organizações espíritas de dife-rentes inspirações, ou pessoas que individualmente fazem uma opção pela proposta e associam-se à ABHP. Todas, no entanto, desenvolvem em suas regiões (bases) um trabalho de Educação em Saúde através de práticas alternativas, entre elas, a prática da Homeopatia Popular.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: banco de dados de sócios da ABHP.

 

10 • Documento Base – A B H P

 

  1. A homeopatia como instrumento de transformação social

 

A homeopatia entrou, aos poucos, no projeto de educação popular desenvolvido desde o IPESP à ABHP, como alternativa e complementação às práticas de saúde exis-tentes. A experiência pessoal dos membros do grupo, a curiosidade sobre seu funciona-mento, leituras iniciais, troca de experiências, compra de bibliografia sobre o assunto, seminários e reuniões de estudos, bem como, o compartilhar de informações constituiu seu início entre nós. Intrigava-nos além do mais, a presença marcante e muito antiga dela em diversas regiões de nosso país, na memória dos mais idosos, sua eficácia no tra-tamento e prevenção comprovada no meio popular e seu curioso “desaparecimento” ou sua “invisibilidade” durante muito tempo. Comprovada por nós sua eficácia, vantagens e acessibilidade, ficamos estimulados em tentar uma experiência inicial de popularizá-la, acrescentando uma nova experiência prática e organizada à então, disseminada, prática popular da fitoterapia. Importante lembrar que, diferente de hoje, em 1981 não se po-dia registrar qualquer interesse médico ou de mercado em torno da homeopatia, consi-derada como prática de ‘fundo de quintal’. Esse desinteresse estava também implantado na cultura geral do Estado Mato Grosso, exceto em rodas muito restritas. Queríamos, nessa época, que ela saísse do âmbito pequeno e elitizado, em que se encontrava e que hoje ainda se encontra, e se tornasse, ao mesmo tempo, prática de organização popular, projeto de saúde pública, espaço de reflexão crítica. Parecia-nos, ainda, que havia no ventre dela, desde sua origem, uma crítica aos paradigmas contemporâneos que orien-tavam e ainda orientam uma ação médica muitas vezes agressiva, guerreira, supressiva e de intervenção localizada, sem as implicações do seu significado abrangente, relacional e holístico.

 

 

 

  1. A missão da ABHP é tornar-se espaço dialógico de construção e socialização de conhecimentos para a educação popular em saúde.

 

A missão da ABHP foi definida por nossa articulação tendo em vista pro-porcionar aos/as Agentes Populares, prático(a)s e simpatizantes da HOMEOPATIA POPULAR, um espaço de formação de educadores populares em saúde, onde se prio-rizasse a metodologia da educação popular freireana (Paulo Freire), visando um diálogo necessário à socialização do conhecimento técnico com o conhecimento produzido no meio popular, cuja troca estabelecesse e promovesse novas relações do homem e da mulher, com eles mesmos, com seus semelhantes e com a natureza, gerando mudanças substanciais na sociedade.

 

A ABHP se caracteriza, portanto, como um espaço de diálogo e de educação popular em saúde – mediado pela homeopatia entre técnicos e não técnicos; diálogo

 

A B H P – Documento Base • 11

 

entre profissionais e não profissionais, em vista de uma nova concepção de ciência e conhecimento que na sociedade contemporânea objetivasse a Vida. Busca, desde então, a troca de saberes, conceituado por muitos como uma síntese entre o saber científico e o saber popular (Boaventura Santos), como responsabilidade de todos e todas, a serviço universal do ser humano, especialmente, dos injustiçados e empobrecidos.

 

 

  1. Estrutura e funcionamento que permite a realização de sua missão.

 

A ABHP é constituída por uma Diretoria e um Conselho Fiscal, eleitos por 02 anos, conforme normas estatutárias. Seus membros são sócios de diversos estados . Estatutariamente a Associação possui 03 categorias de sócios: os sócios agentes popu-lares, aqueles que prestam serviços voluntários à comunidade e passaram por um pro-cesso de formação e acompanhamento da própria Associação e/ou por intermédio de seus educadores; os sócios práticos, aqueles que, em geral, são terapeutas naturistas ou pessoas autodidatas, ou ainda profissionais liberais que atuam com homeopatia. Estes últimos, de maneira geral prestam serviços à comunidade e utilizam da homeopatia em seus trabalhos profissionais não se caracterizando por um trabalho voluntário como aquele levado a efeito pelos agentes educadores populares; a terceira categoria são os só-cios contribuintes, aqueles que acreditam e apóiam os trabalhos da homeopatia popu-lar. Na busca de manter um espaço dialógico a Associação distribui suas atividades em:

 

  1. cursos intensivos para educadores populares (multiplicadores); cursos para edu-cadores populares de base, realizados em parceria com os educadores populares multiplicadores em suas regiões/estados,

 

  1. articulação dos sócios, através de assembléias anuais, encontros regionais, visitas e comunicações ON LINE e diretas, através, especialmente, do boletim infor-mativo “O Semelhante ”

 

  1. produção de subsídios em linguagem popular (livros de conteúdos básicos e avançados de homeopatia); boletim informativo/formativo “O Semelhante”, apostilas específicas para cada curso ou seminário;

 

  1. articulação com entidades e grupos do movimento popular, com órgãos públicos afins, para debates de temas de interesse social; de formação de lideranças (edu-cadores populares) e defesa da cidadania, e do direito junto às políticas públicas, especialmente da Saúde e da Educação.

Da atual diretoria fazem parte: Marialva Oliveira da Costa – Presidente – RO; Zilda Maria Borges – Vice-Presidente – MS; Ângelo Ravanello – 1º Secretário – PR; Maria Goreth Kniess – 2ª Secretária – MT; Vera Maria Da Silva – 1ª Tesoureira – MT; Ordenil Veloso Da Paixão -2º Tesoureiro – RO

 

Trata-se de um boletim informativo/formativo editado e distribuídos aos sócios trimestralmente.

 

12 • Documento Base – A B H P

 

  1. A diversidade da atuação no meio popular: uma experiência de multiplicação e conexões de saberes.

 

Nas diversas regiões onde atuam os Educadores populares associados e/ou ar-ticulados com a Associação, suas atividades nas comunidades se constituem em asses-soria a temas como políticas públicas, organizações e metodologias dos trabalhos de base. Estabelecem um diálogo da Homeopatia Popular com outros campos de saúde alternativa ou complementares, como a alimentação alternativa, Fitoterapia, Do-In, Massagem, Acupuntura, Shiatzu, Reiki, Florais de Bach e outras tantas.

 

A priorização da ABHP, na Assessoria e formação, se dá no campo da Educação Popular através da Homeopatia Popular, e, deu-se como decorrência da busca de espe-cificidade desde o IPESP, diante da demanda de assessorias solicitadas. Havia no país grandes centros e grupos ligados, por exemplo, à fitoterapia, massagem e não havia um grupo de caráter popular, não técnico que se dedicava a sistematizar e a criar a homeo-patia com entendimentos e metodologia que a pensasse e a sistematizasse em uma pers-pectiva popular. A especificidade de atuação no campo da homeopatia popular, nunca se constituiu, apesar disso, no grupo, como exclusividade. Neste sentido o IPESP – e, posteriormente, a ABHP – sempre mantiveram a necessária articulação com os demais grupos organizados em torno das políticas públicas de saúde e educação, das lutas pela garantia e ampliação de direitos sociais e tendo, já em seus inícios, a busca de comple-mentaridade das demais práticas terapêuticas, demonstrando a capacidade de uma ação de respeito à diversidade e de integralidade indispensável no campo da saúde. Foi regis-trada desde o nosso I Congresso de Homeopatia Popular, há dez anos atrás, a experiên-cia concreta e projetiva de uma luta pela complementaridade nos sistemas de saúde.

 

 

  1. De que vive a ABHP?

 

A ABHP, como a maioria das ONGs não recebe recursos públicos. Desde a constituição da Associação, esta não teve projeto financeiro apoiado por grupos internos e/ou externos. Nos três primeiros anos, o IPESP obteve auxílio financeiro da Bilance da Holanda (Instituição de apoio a projetos de desenvolvimento para países do terceiro mundo), para ajudar na consolidação da Associação. Depois desse momento, a ABHP se manteve com as contribuições de sócios (anuidades) estabelecidas em assembléias gerais e projetos pontuais em alguns eventos e doações específicas, em geral de caráter emergencial ou instrumental, para compra de um computador, de uma impressora, para impressão de um livro, e assim por diante. Em 2006, realizamos uma rifa com a contri-buição de todos os Estados cuja arrecadação ajudou a implementar pequenos consertos e, a reforma da sede emprestada, que ainda ocupamos atualmente.

 

A B H P – Documento Base • 13

 

Os serviços realizados pela Associação são gratuitos. As taxas cobradas nos cursos suprem precariamente despesas de alojamento, alimentação, subsídios e manutenção. A Associação não se beneficia financeiramente com os serviços prestados no cumprimento dos seus fins e objetivos.

 

 

  1. O(a)s educadore(a)s em Saúde da Homeopatia Popular

 

 

  1. Perfil do(a)s educadore(a)s

 

O(a)s educadore(a)s da homeopatia popular, articulados e/ou sócios da ABHP provêm, na maioria das vezes, das periferias da cidade e do campo. Algum(ma)s são técnico(a)s da área de saúde, entretanto o maior número de agentes advém de diver-sos campos profissionais. A escolaridade não constitui condição imprescindível para a aprendizagem da homeopatia popular, ainda que o uso da leitura e escrita contribua para o conhecimento. Não raro ocorre que, muito(a)s agentes têm uma história de ter iniciado e desenvolvido a aprendizagem de leitura e da escrita, a partir de sua práti-ca na homeopatia. Parte significativa das pessoas ligadas à homeopatia são mulheres, oportunizando a reflexão e inclusão nos temas da ABHP, no que concerne à questão da importância estratégica da participação e do protagonismo das mulheres na educação em saúde, e das questões de gênero.

 

 

  1. A quem se destina as ações destes educadore(a)s?

 

De maneira geral as ações dos educadore(a)s populares, sócios e/ou articulados com a ABHP, se destinam às comunidades empobrecidas; à pessoas que procuram orientações e tratamentos complementares ou diferenciados, indistintamente de ori-gem, condição social, racial ou de classe; a grupos organizados que querem ampliar conhecimentos, trocar experiências e articular como por exemplo, a pastoral da saúde, das mulheres, as pastorais sociais. A ABHP se destina ainda como assessora da metodo-logia popular de saúde a movimentos por cidadania; sindicato de trabalhadores rurais; Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST); associações ou grupos de mulhe-res; associações de moradores; Movimento Popular de Saúde (MOPS); Organizações Não-Governamentais (ONGs); Comissão Pastoral da Terra (CPT); igrejas evangélicas; organizações espíritas e outras formas religiosas. A diversidade de atuações, de motiva-ções e de crenças é acolhida como um enriquecimento para as trocas de experiências e celebrações. Tal multiciplidade não nos divide, nos enriquecem, e permite educarmo-nos para a tolerância, solidariedade e paz.

 

14 • Documento Base – A B H P

 

  1. Quais as razões que sustentam a prática do(a)s educadore(a)s de Saúde da Homeopatia Popular

 

Os educadore(a)s populares de saúde , são pessoas do povo que, por solida-riedade, por posicionamento político, fé ou missão assumem o serviço de atenção à saúde/doença junto ao mesmo povo. Este(a)s educadore(a)s vivem a reciprocidade que caracteriza as relações sociais do povo pobre, sabem que sós não subsistirão, apon-tando para a necessidade de uma ação de parcerias e complementaridade. Colocam suas forças, conhecimentos e tempo a serviço da vida dos outros. Muito(a)s deste(a)s educadore(a)s que participam dos cursos e dos trabalhos promovidos pela ABHP são cristão(ã)s, evangélico(a)s, católico(a)s, luterano(a)s, batistas, anglicano(a)s, pentecos-tais ou filiado(a)s a pastorais ou movimentos; espíritas, algun(ma)s declaram-se sem fé, mas sempre filiado(a)s a grupos, movimentos ou partidos que buscam uma sociedade justa, solidária e democrática. O que nos caracteriza como Associação expressa rica variação e diversidade de saberes, crenças e afetos, sintetizando uma unidade de valores e práticas voltados ao exercício da cidadania.

 

De maneira geral o que realmente sustenta essa prática é no entendimento dos próprios educadores: a descoberta que sempre há algo mais a fazer pela vida, seja por causa da fé, da solidariedade, da prática política, da caridade, da compaixão, da reali-zação pessoal de ver o(a) outro(a) sair do sofrimento. O trabalho se caracteriza ainda pela busca do reconhecimento, da reciprocidade, da re-elaboração da aprendizagem permanente da troca de conhecimento; do desejo de mudança de vida; da busca por justiça; da procura individual pela saúde plena sua e/ou de sua família que se desdobra no social; da busca da melhoria da qualidade de vida; da descoberta de um sentido novo para a vida pessoal ou coletiva.

 

Todo(a)s, porém, têm em comum o entendimento da necessidade de superar esta sociedade assimétrica, excluidora e injusta que semeia desigualdade, fome, exclu-são e morte. A meta de todos, e, portanto, da Associação é a emancipação política e a cidadania para todo(a)s. Qualquer que seja a motivação desses educadore(a)s para a ação, o que neles há de comum é a busca da democratização da sociedade, de seus serviços, valores e bens, e a participação efetiva de todos nos destinos do país e dos seus semelhantes, objetivando a cidadania e a solidariedade planetária.

 

 

 

 

 

 

 

 

Também conhecido(a)s como agentes pastorais de saúde, ou agentes de saúde da Homeopatia popular.

 

A B H P – Documento Base • 15

 

  1. Os sócios da ABHP em outros Países

 

Também em outros países existem agentes populares de saúde que mantêm ou mantiveram conosco contato orgânico ou por afinidade de projeto de sociedade e de saúde, quais sejam: Portugal, Itália, Uruguai, Argentina, Moçambique, Angola, Nicarágua, Espanha, Suíça, República Dominicana, África, Alemanha, Cuba, Áustria, Bolívia e Paraguai. Muitas vezes são pessoas que fizeram curso através de educadores (agentes multiplicadores) formados na metodologia dos nossos cursos do IPESP e da ABHP, e que trabalham fora do Brasil, mantendo as características, orientação me-todológica e/ou subsídios produzidos pelo IPESP/ABHP. Outros protagonistas nos encontraram na mesma busca com os mesmos ideais e lutas, porque possuem em suas realidades, afinidade acerca da visão de mundo, da visão humana, da visão ambien-tal e política que inspiram nossos projetos. O fato é que hoje, muitos educadore(a)s da homeopatia popular vão espalhando essa Boa-Nova por todos os cantos, tornan-do acessível a apropriação de uma forma de trabalho estreitamente associada a uma visão sócio-humanista, solidária, ecológica e até mística, que não é propriedade da Associação ou de grupos determinados, mas é um projeto utópico que toma vôo pela negação da sociedade que não queremos em rumo a uma outra sociedade que possa realizar os nossos sonhos de vida em abundância. A homeopatia popular não tem dono. Está sob o controle e a serviço das populações empobrecidas, e que por direito não pertence a ninguém exclusivamente. O Direito popular de uso da homeopatia popular é garantido pela tradição e pela lei brasileira, e afirmado em todos os grandes encontros mundiais que proclamam que a saúde é tarefa de todos e de cada qual. Direito inaliená-vel à vida e que desperta opositores dentro de marcos legais desumanos, que expressam e tornam claro que a lei é, por vezes, utilizada como privilégio a serviço das elites e dos mais fortes, contra o direito legítimo das maiorias. É, por isso, uma conquista coletiva construída na prática e reconstruída na teoria, mas, sobretudo, uma conquista de mar-cos legais que se afine com o direito democrático à humanidade plena e universal de todos e todas. Essa experiência popular, portanto, constituída de simplicidade, de fácil acesso à população empobrecida tem sido motivadora para o engajamento de pessoas comprometidas com as causas sociais seja nas suas comunidades de origem, seja em outros países ou lugares empobrecidos, onde se fazem presentes por solidariedade.

 

16 • Documento Base – A B H P

 

  • Orientação teórico-metodológica da Associação.

 

 

  1. diretrizes de ações

 

As diretrizes ou balizas para a nossa ação constituem-se de referências construí-das e reconstruídas desde o IPESP que possuía os seguintes princípios inspiradores para ação e organização:

 

  1. Fortalecer as práticas alternativas existentes nas comunidades respeitando a au-tonomia delas e sua identidade própria, garantindo sua emancipação e autono-mia.

 

  1. Contribuir com uma formação que garanta um ciclo de informações necessárias para a prática cotidiana dos agentes junto às suas comunidades (temas de interes-ses coletivos dos agentes).

 

  1. Promover intercâmbio de atividade entre as comunidades assessoradas entre si e com outros movimentos sociais, para fortalecimento de suas lutas específicas.

 

  1. Fortalecimento das lutas gerais dos movimentos sociais populares.

 

  1. Garantir um processo contínuo e progressivo de autonomia dos grupos assesso-rados.

 

  1. Aproveitar as datas comemorativas como forma de mobilização social e formação de consciência crítica acerca dos problemas sociais, bem como de busca de solu-ções, ainda que em pequenos passos.

 

  1. Promover um despertar dos grupos pelas questões políticas e a necessidade de ação organizada junto às políticas públicas, especialmente as políticas de saúde e educação, em particular do Estado e Município.

 

 

Princípios que reformulados no coletivo da ABHP, foram resignificadas e es-tatutariamente instituídos e, estão permanentemente, sendo re-elaborados no processo educativo da Associação. Assim seus princípios estatutários são:

 

  1. Congregar os Agentes (educadores populares) e Práticos de Homeopatia Popular, visando a harmonização integral do ser humano;

 

A B H P – Documento Base • 17

 

  1. Coligar-se a associações e Federações Nacionais e Internacionais, destinadas aos seus objetivos;

 

  1. Instalar seções regionais; promover cursos básicos e avançados de aperfeiçoamen-to e reciclagem de Agentes (educadores populares), bem como promover pales-tras e encontros para divulgação de objetivos da entidade;

 

  1. Assistir aos associados juntos aos poderes públicos e ampará-los nas suas justas pretensões na defesa de seus legítimos interesses;

 

  1. Fazer-se representar em todos os atos que digam respeito aos interesses dos as-sociados;

 

  1. Promover encontros, reuniões, comemorações com o fim de aproximar os asso-ciados;

 

  1. Não discriminar nenhuma pessoa por cor, raça, credo, língua, sexo ou opção político – partidária;

 

  1. Respeitar a legislação pertinente e, em especial, se orientará pelo capítulo da saú-de da Constituição Brasileira;

 

  1. Promover a investigação científica da Homeopatia e promover a ampla divulgação de informações sobre as diferentes técnicas de terapias naturais de forma a esti-mular o intercâmbio cultural;

 

  1. Colaborar com entidades nacionais e internacionais de ordem pública ou particu-lar, tendo em vista enaltecer, dignificar e ensinar a homeopatia, com a suprema idéia de permanecer a serviço da humanidade, da saúde, da sobrevivência e segu-rança do planeta;

 

  1. Compreender a dor como um alarme orgânico aprendendo, com a doença, os ca-minhos para a harmonização e trabalhando, constantemente e sem tréguas, para divulgar formas de potencialização das defesas orgânicas e imunológicas;

 

  1. Manter uma ética terapêutica, vida sadia, higiênica, naturista, ecológica e profi-lática.

 

 

Estes princípios registrados institucionalmente expressam o desejo de cooperação, autonomia e construção de uma sociedade justa e fraterna, constitucional, que expresse uma sociedade sem discriminações e solidária como expressão da cidadania universal.

 

18 • Documento Base – A B H P

 

  1. Identidade da ABHP

 

Embora muito pequenos diante da injustiça, a ABHP nos seus trabalhos e no seu Boletim “O Semelhante” tem mantido uma opção clara:

 

 

  1. Do ponto de vista econômico

 

A ABHP denuncia as formas capitalistas, entre elas, a Neoliberal ainda em curso em nosso país. Apesar de situação econômica do Brasil ter ampliado o acesso a uma condição menos cruel para os empobrecidos, ela parece manter ainda privilégios e altos financiamentos com recursos públicos a projetos de monocultura extensa, agro-negócio, que não expressa o interesse da maioria dos cidadãos, nem a saúde das pessoas e do Planeta. Produção extensa em forma de monocultura é executada dentro do país, como apoio imprescindível para a economia dos países ricos, em detrimento dos interesses internos, e uma economia de precárias melhorias, localizadas, voltada para minorar a miséria e a fome que persistem.

 

Este modelo econômico-político e voltado à exportação, com altas taxas de ju-ros, favorecem os Bancos. Condena ao sofrimento trabalhadores do campo e da cidade. O solo orgânico da Amazônia tratado como solo mineral para plantio intensivo de soja e de cana para as usinas de álcool. Usinas que, freqüentemente, sob forma de trabalho degradante ou de manutenção prática de escravidão contemporânea disfarçada promove a pobreza e destrói a vida dos trabalhadores. O álcool, salvo outra forma de produzi-lo, continua imaginando ter o pé nas senzalas e crucificando os trabalhadores, ampliando os conflitos de terra, a pistolagem e a truculência. O governo brasileiro parece incapaz de reverter estas situações estruturais. Há impacto direto da macroeconomia sobre a qualidade de vida de todos os brasileiros. A população negra continua sendo tratada como delinqüente tanto pela cultura do capital, quanto pela ideologia divulgada nos meios de comunicação, de sorte que têm direitos consuetudinários à terra de vida e tra-balho, continuamente agredidos com medidas judiciais e intimidação por aqueles que querem a propriedade da terra como objeto de acumulação e de negócio. O governo e a polícia federal têm feito diversas operações de mapeamento destas irregularidades que parecem infinitas, e que se multiplicam com apoio de funcionários, políticos, minis-tros numa rede sinistra de corrupção. No âmbito da medicina não é demais sublinhar o gasto abusivo de pesquisas sofisticadas que passam a ser acessíveis a poucos, e que consomem altos orçamentos públicos às custa da supressão de serviços básicos para a maioria. Existe ainda uma prática de considerar a saúde como ‘presente’, de forma que a manutenção de uma saúde pública primária está ordinariamente relegada ou sucateada. Os profissionais médicos e técnicos das áreas de saúde estão desmotivados

 

A B H P – Documento Base • 19

 

pelos baixos salários e pagamentos em atraso, e a completa ausência de recursos básicos que permitam o atendimento elementar à população, que recebe dia-a-dia serviços de péssima qualidade. O cancro na medicina são os conjuntos de especializações que impedem a visão do ser humano numa perspectiva integradora, com atenção à ‘partes’ e ‘pedaços’ isolados, e, o mais grave, dentro de pactos de determinados grupos que autorizam verdadeiros feudos de controle de máquinas, tecnologias, exames ou proce-dimentos. Procedimentos sem qualquer sentido de totalidade dos processos de saúde e doença num ser humano que se apresenta num corpo que se expressa como totalidade, na expressão dos sentidos e das relações, sem esquartejamentos. O Estado diminuiu os processos de privatização, mas a recuperação de grandes recursos como a Vale do Rio Doce, precisa urgentemente da mobilização de todos e todas. Por outro lado, os transgênicos tomam produtos alimentares, e recebem cobertura em seu plantio, sem que o governo possa desativá-los. As conquistas políticas dos trabalhadores parecem dia a dia ameaçadas pelo neoliberalismo. O SUS permanece continuamente contigenciado como também a Previdência Social. Em Mato Grosso os serviços públicos de homeo-patia, que existiram em tempo precário, foram absorvidos e suspensos. Denunciamos ainda a riqueza ostensiva, bem como a posse de bens em vista da acumulação e “esto-que”, especialmente do solo rural e urbano. Sabemos da baixa produtividade dos in-vestimentos realizados em latifúndios, quando comparado à produtividade das médias e pequenas propriedades, no entanto, são as primeiras que recebem capital com juro baixíssimo anual, quase a fundo perdido. Denunciamos também a invasão das terras indígenas promovendo a derrubada das florestas, feita de modo violento ou disfarçado, em detrimento da justiça e da sobrevivência destes povos. A ABHP entende, ainda, que a saúde humana é inseparável de uma corajosa e inadiável Reforma Agrária madura e responsável que assente Trabalhadores Sem Terra e lhes dê condições de organização e trabalho, medida esta sempre protelada pelos Governos. Denunciamos ainda a violên-cia do Estado responsável ou por omissão ou por prática de violência nua ou simbólica contra trabalhadores, mulheres e crianças como as que ocorrem assiduamente contra a população indígena, com a população das favelas e afro-descendentes. Os métodos de reflorestamento e de agricultura orgânica se ampliam, ao mesmo tempo, há utilização predatória de recursos naturais, numa velocidade sem precedentes, sob modelos de ocupação destrutivos das diversidades, e em geral em favor duma produtividade exten-sa baseada na monocultura e de esbanjamento de recursos biológicos não recicláveis. Há projetos, no Mato Grosso, inescrupulosos, de redução da área amazônica para fim de plantio de cana. Fomenta-se ainda, uma biotecnologia mais em favor da guerra dos grandes contra os pequenos, do que de beneficiamento da humanidade. A sociedade humana tem sofrido impacto sem precedentes, nas suas relações gerais com a globali-zação proveniente da adoção do modelo econômico-político Neoliberal, onde homens

 

20 • Documento Base – A B H P

 

e mulheres, bem como toda forma de vida estão submetidas e imoladas em Sacrifício idolátrico ao deus-Mercado, mortífero, sangrento e fetichizado.

 

Mesmo neste contexto, a ABHP, anuncia – a partir da organização popular – que uma nova economia solidária é possível, e já está em curso na América Latina e no planeta!

 

 

  1. Do ponto de vista político:

 

A ABHP se compreende brasileira e latino-americana. Entende que o capita-lismo não é democrático, e sequer há democracia no capitalismo, porque ele se baseia numa relação de exploração, dominação e dependência de classe. Concentra o fruto do trabalho coletivo para apropriação privada. Não é possível haver respeito à dignidade humana sem isonomia política entre todos os homens. A democracia em nosso país precisa ser inventada. Há esforços dos movimentos sociais em construí-la pela luta per-manente. denunciamos, por isso, as formas de dominação dos países capitalistas cen-trais por sobre os países latino-americanos e de terceiro e quarto mundo. Apostamos na organização de base dos pobres e ‘incluídos’ na miséria, na pobreza e na fome pelo capitalismo mundializado. É necessária a construção diuturna da fraternidade humana e da equidade. A ABHP defende as bandeiras de luta de todos os trabalhadores que se opõem claramente às formas de opressão, manipulação, e à política de ‘inclusão perversa’. Há um esforço da América Latina, neste sentido, em países como Venezuela, Equador, Bolívia e Brasil do contrapor-se às formas imperialistas que açambarcam o controle dos bens naturais destes países como o petróleo venezuelano, o gás boliviano, fontes de energia, gerando dependência. Os movimentos populares lutam por emanci-pação, autonomia e redefinição de suas constituições, numa ótica libertadora e popular. Bolívia e Equador centram políticas no protagonismo dos povos indígenas, maioria populacional nestes países, sempre relegados e tutelados por interesses brancos e in-ternacionais. Situação que degradava a vida e semeava a doença e morte. Há necessi-dade da unidade latino-americana, da qual o Brasil não poderá fugir. Denunciamos o seqüestro sistemático da cidadania pelo Estado que tem derrubado direitos sociais por arranjos na esfera política, permitindo um estado paralelo, que favorece – novamente – o grande capital. Denunciamos, ainda, as formas de trabalho escravo, a desvaloriza-ção do sangue e suor dos que trabalham, a privatização de bens, dinheiros públicos e a corrupção – que apesar do esforço do governo e da polícia federal – põe a nu a ausência de interesse das instituições na transparência, de forma a multiplicar-se a lavagem de dinheiro, o mercado de armas, a formação de quadrilha, aparatos paramilitares, violên-cia institucional e simbólica acobertada pela desinformação na esfera da comunicação

 

A B H P – Documento Base • 21

 

de massa, tem sido constantes. Afirmamos a necessidade do Apoio de todos e todas às Assembléias Populares que busca instrumentos coletivos de mudança na correla-ção de forças políticas na atual conjuntura nacional. Necessitamos que a sociedade civil organizadas, mobilize a sociedade, para revisão urgente do ‘leilão’ da Vale do Rio Doce. Ela foi expropriada à nação, por valor muito menor do que ela tinha em caixa. Defendemos uma reforma política que viabilize a transparência dos processos, controle dos meios de comunicação a serviço dos setores populares do país.

 

 

c- Do ponto de vista social:

 

A ABHP continua a proclamar que a vida e a saúde se constituem em direito subjetivo, inalienável, pelo qual todo gestor público pode ser chamado à responsabili-dade penal por descaso e omissão. A saúde humana continua a ser bagatelizada como mercadoria. É preciso denunciar e acionar instâncias jurídico-políticas para reverter este quadro desumano. Os serviços de saúde que são direitos constitucionais de todo o cidadão, e dever a ser cumprido pelo Estado sem quaisquer subterfúgios, tem sido extremamente lentos. São ameaçados de serem desativados por procedimentos ‘legais’, de sorte que, existem neles enormes irregularidades e crueldades. Há um legalismo perverso por parte das agências prestadoras de serviços de saúde, terceirizadas, e que se prestam a desvios de recursos econômicos públicos via Estado, que passam para mãos de grupos privados que operam irregularmente e em coluio com gestores públicos custeando não raro suas campanhas eleitorais. Grandes grupos, de ética duvidosa, que terceirizadas comercializam serviços com dinheiro público. Há mais interesse econô-mico-empresarial em ‘fabricar’ doenças do que em promover saúde. Basta ver a produ-ção absurda de medicamentos desnecessários, tóxicos, e, por vezes, inócuos. Há casos muito piores: utilizam medicamentos para deflagrar outras doenças cujo quadro de sintomas induzidos, exijam o consumo de ‘medicamentos’ paliativos de uso contínuo, com objetivo o “lucro” auferido pela doença. Reafirmamos: saúde constitui matéria demasiadamente séria, para ser tarefa delegada exclusivamente a especialistas. Por quê? Saúde é um direito inalienável. Os governos do mundo inteiro não conseguem e, em alguns casos, sequer têm interesse em impor barreiras à atuação selvagem das empresas que fazem do agravamento e extensão do panorama de enfermidade, seus principais lucros. Ora, medidas na esfera do Estado não são suficientes para deter esta forma de delinqüência, é por isso que a ABHP defende o trabalho ativo de todo(a)s pela saúde e contra a fábrica de enfermidades. Neste contexto inescrupuloso, o controle, a vigilân-cia e cuidado com a saúde e com a vida não pode ser responsabilidade, legitimamente, atribuída com exclusividade a determinados setores da sociedade, com cerceamento legal a atuação defensiva e promotora delas, pelos próprios sujeitos-alvos, vítimas destas

 

22 • Documento Base – A B H P

 

operações. Só se poderá construir uma “SAÚDE IGUAL PARA TODOS” (Esquivel), com a cooperação de cada cidadão, sem que ninguém se furte à fiscalização, controle e participação. É bem-vinda a mobilização de cidadãos pela divulgação dos direitos de consumidor na esfera da saúde necessária também a ampliação e mobilização das víti-mas por erros médicos, estabelecendo na área da saúde formas de atuação cidadã, que restabeleça relações democráticas onde ela tem desaparecido pela ditadura e hegemonia das corporações, cartéis que seqüestram – ilegalmente – a liberdade imprescindível dos cidadãos no que se refira às suas vidas, de seus concidadãos e de seu país. A saúde não é simplesmente assistência médica, é promoção do ser humano e do direito de ser feliz.

 

 

  1. Do ponto de vista cultural

 

A ABHP, tendo em vista a discriminação sofrida pelos grupos sexuais, raciais, religiosos e étnicos, reconhece a necessidade de que todo cidadão e particularmente os agentes de saúde, não desvinculem a luta pela saúde das lutas mais gerais contra as do-enças ambientais que vitimam os mais pobres, bem como a doenças sociais, culturais, de gênero e transgênero, raciais, e de classe. Todo(a)s lutem por uma cidadania para todos. Vamos contribuir para uma sociedade brasileira democrática, que possa garantir uma convivência humana justa, sem esmagamento e silenciamento das maiorias estig-matizadas. Em nossas sociedades não há democracia cultural. Os meios de comunica-ção de massa que deveriam servir para divulgação, informações e dimensão educativa, estão concentrados nas mãos de grandes famílias e oligarquias políticas antipopulares que têm promovido na América Latina crescente desinformação e arma contra o Estado toda vez que seus interesses e aliados imperialistas sejam ameaçados. De sorte que as concessões públicas destes meios são usadas de modo imoral, usando as redes de comu-nicação para desestabilização política e constrangimento, constituindo-se anticonsti-tucionalmente em um estado paralelo ao estado. Os donos das “Comunicações” têm se deslocado do ‘atacado’ das grandes redes de jornais, rádios e imprensa televisiva para o varejo das rádios “comunitárias”, hoje, sob domínio – novamente! – da classe política que ocupa, segundo pesquisa patrocinada pela Fundação Ford, aproximadamente 85% delas, para um novo “coronelismo populista” antidemocrático. Acreditamos que a vida democrática carece de uma nova ordem mundial da comunicação, que permita a circu-lação cada vez mais ampla das informações e das descobertas das ciências que incentive o debate franco sobre o significado ético e social delas, e que se volte ao bem comum. Não há democracia sem meios de comunicação democráticos. È necessário ampliar as informações que repercutirão na vida do planeta. E, sobretudo, garantir o empodera-mento dos setores populares expressando seus interesses com autonomia. A ABHP em sua atuação busca contribuir com esta dimensão, na medida em que não impõem, no

 

A B H P – Documento Base • 23

 

trabalho com os setores populares, formas estereotipadas de organização e de respostas que não sejam fruto da voz das particularidades culturais em diálogo nas suas regiões. Este diálogo sempre será conflitivo. A democracia é conflitiva. Ela se recria em cada espaço com bandeiras universais, lutando pela emancipação e autonomia dos grupos e organizações, e capacidade de permitir a expressão das diferenças. A cultura se diversi-ficou. Esta cultura hoje busca novas formas de saúde, a serem amplamente divulgadas porque buscam promover uma unidade entre natureza e cultura, espiritualidade e vida, saúde e meio ambiente. Temos, pois, o surgimento da agroecologia tem garantido não apenas a utilização da homeopatia como prevenção e tratamento, mas é necessária a saúde animal, das plantas, das águas, da terra, do ar. Multiplicam-se o número de homeopatias em experimentação que complementam a homeopatia Hahnemanniana através do uso de nosódios (homeopatias feitas a partir de microorganismos patogê-nicos, matéria contaminada, bactéria, fungos, vírus ou suas endotoxinas, diluídas e dinamizadas, neste caso seguindo o princípio do igual contra o igual, e não o princípio da semelhança). As formas deste tratamento têm se mostrado eficaz para o controle de pragas, doenças em animais e plantas, descontaminação de solos, energização da água, e recuperação da saúde. Há, entre os agentes, uma rede de solidariedade, troca, alimen-tação das pesquisas, de forma a garantir a circulação de conhecimento e a apropriação popular, de direito, do uso da homeopatia. Há aqui um processo de interculturalidade, educação ambiental, ecologia mediante práticas e saberes que criam redes de solidarie-dade e de planetaridade entre todas e todos.

 

 

  1. Do ponto de vista religioso:

 

A ABHP atua também junto a pastorais e grupos religiosos, reflete em sua práxis, com estes grupos uma postura cristã libertadora que dialoga com outras espiri-tualidades. Entende que a dimensão religiosa pode acrescentar radicalidade na ação de solidariedade e fraternidade. Entende, ainda, que a dimensão religiosa precisa cultivar tolerância e grandeza. E, na esfera da luta pela saúde e pela vida, a espiritualidade pode gerar maior disponibilidade para a tarefa árdua do anúncio e denúncia da injustiça, face aos valores do Reino, ainda que sob ameaça de perseguição e martírio. A ABHP define-se, nestes espaços, como também o fazem um grande número de cristãos e de entidades no país e na América Latina, como parceira na busca de um macro-ecume-nismo; estimulando diálogo e práticas libertadoras não apenas entre os iguais, aquele que são cristãos, mas busca o diálogo inter-religioso entre diferentes. Compreende o diálogo e a troca com os não-cristãos como condição da fé, e, necessidade em face de que as guerras utilizaram e continuam a utilizar razões ‘religiosas’ para legitimar funda-mentalismos, guerras, extermínio e genocídio da humanidade.

 

24 • Documento Base – A B H P

 

  1. Do ponto de vista da criação do conhecimento:

 

A sabedoria e o conhecimento, honestos, são desprovidos de preconceitos, por-que não temem a diferença. A grande revolução de nossos tempos foi a introdução de novos instrumentos e metodologias, que relativizaram o que até pouco tempo atrás era concebido como verdade absoluta no campo das ciências. Além disso, a característica central do mundo contemporâneo é a da incorporação dos próprios sujeitos na criação do seu conhecimento . Valoriza-se então o feminino, a intuição, as percepções, a emoção, a imaginação, a inventividade nos novos caminhos dos saberes e práticas. Neste panorama fazem história e ciência – neste novo mundo – os cidadãos abertos à novidade, a uma intercomunicação planetária; a um conhecimento compromissado com a preservação e promoção da vida. Fazem história e ciência somente aqueles que estão abertos a uma ética comunicativa para todos, à derrubada dos padrões patriarcais, a derrocada dos cartórios e corporações, ou seja, abolição – em nome da verdade e da liberdade – de todo e qualquer forma de totalitarismo. Este novo estilo de produção de conhecimento carece também de um novo pesquisador e de um novo tipo de cientista, diferente, dizia Esquivel: “daquele que conhece a cara do micróbio, mas esqueceu da cara do povo ”. A vida melhor para todos necessita urgentemente da dissolução dos feudos nas diversas áreas do conhecimento e o que se possa chamar uma verdadeira ecologia dos saberes! A ABHP acredita por isso que não se pode ingenuamente pensar que a vida e saúde só se obtenha e mantenha por tecno-logias convencionais geradas dentro do paradigma de ciência dominante. A ABHP soma esforços com todos que sonham por uma ciência despida de mitos, ídolos e preconceitos, colocando-se despretensiosa do lado da verdade e da vida, estejam elas onde estiverem. A vida da pessoa humana não pode admitir dogmatismo de princípios e métodos: deve ser empregada todas as possibilidades que possam servir a Vida, mantê-la e promovê-la.

“A teoria Quântica revela, assim, uma unidade básica no universo. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidades menores dotadas de existência independente. (…) Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo. Essas relações sempre incluem o observador, de maneira essencial. O observador humano constitui o elo final na cadeia de processos de observação, e as propriedades de qualquer objeto atômico só podem ser compreendidas em termos de interação do objeto com o observador. Em outras palavras, o ideal clássico de uma descrição objetiva da natureza perde sua validade. A partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador e o observado, não pode ser efetuada quando lidamos com a matéria atômica. Na Física atômica, jamais podemos falar sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós mesmos.(…). “ Fritjof Capra no “O Tao da Física “São Paulo: Cultrix, 1991 (Prefaciado por Mario Schemberg) p. 58.

 

(…) A teoria quântica aboliu a noção de objetos fundamentalmente separados, introduziu o conceito de participante em substi-tuição ao de observador, e pode vir a considerar necessário incluir a consciência humana em sua descrição do mundo. Ela foi levada a ver o universo como uma teia interligada de relações físicas e mentais cujas partes só podem ser definidas através de suas vinculações com o todo. “CAPRA, Fritjof. Ibidem. Ler páginas 58 e 112.

 

Diálogo de Dr. José Renan Esquivel – Ministro da Saúde dois mandatos no Panamá, Médico Chefe do Hospital del Niño, Assessor do Sistema Nacional de Saúde em Cuba, vário prêmios internacionais – com Professores da UFMT, no Posto de Saúde do Grande Terceiro (1985). O IPESP constrói seu marco teórico-metodológico mediante assessoria de Dr. José Renan Esquivel e da Professora Jornalista e Educadora Popular: Elza Ferreira Lobo. Ambos presentes no I Congresso Brasileiro de Homeopatia Popular.

 

A B H P – Documento Base • 25

 

IV -A Homeopatia na ABHP : possibilidade de uma concepção dialética de saúde-doença.

 

 

  1. A concepção de saúde-doença do IPESP/ABHP: Saúde não bem estar, saúde

 

  • luta!

 

A homeopatia popular orientada pela ABHP assumiu a concepção teórica desenvolvida a partir do IPESP que se inspirou na concepção dialética de Saúde X Doença do médico panamenho Dr. José Renan Esquivel, superando a visão parcelar e fragmentada do Corpo Humano. Os conceitos saúde/doença utilizados pela homeo-patia médica sempre estiveram formulados por uma concepção vitalista (funcionalista) ainda muito presente nas práticas de atenção à doença. Ao contrário, desde o IPESP tomamos o ponto de partida de Esquivel: “ Partimos do fato que a célula mais sã é a cé-lula com capacidade de defender-se dos vírus, tóxicos, bactérias e contra tudo que a agride, da mesma forma, o homem saudável deve organizar-se contra tudo o que o agride, vírus, bactérias, tóxicos, e até mesmo contra o próprio homem...”

 

Inspirados, portanto, nessas premissas apresentadas e defendidas por Renan Esquivel, o IPESP construiu um conceito amplo e filosófico de saúde e doença que passa a ser fonte de inspiração para as reflexões dos educadore(a)s populares em saú-de. Pela coerência dessa formulação, a ABHP – Associação Brasileira de Homeopatia Popular -, a assume e incorpora esse patrimônio em seus princípios metodológicos. Transcrevemos abaixo:

 

Para nós, o conceito de saúde atinge desde a menor célula do corpo até a grande organização da sociedade. Ora, se Saúde é o ‘ resultado das condições de organização de uma determinada sociedade’, na sociedade enferma em que vivemos – saúde não é bem-estar, Saúde é Luta( Esquivel).

 

Quando uma célula é incapaz de dar e receber, e de estabelecer contínuas trocas com o meio no qual vive, ela se deteriora. Se uma pessoa humana se fecha no seu mundo, sem distribuir, sem intercambiar, sem se relacionar, estará a caminho da loucura e da autodes-truição. Quando uma célula acumula no seu interior certos tipos de elementos, os quais são desnecessários à sua sobrevivência ela ficará intoxicada. Quando uma pessoa junta para si bens desnecessários, destrói em seu egoísmo, sua vida e a dos outros. Está louca e enferma.

 

Quando uma célula quiser manter-se inalterável, sem acolher as transformações metabólicas, morrerá por esclerose. Quando uma pessoa buscar perpetuar-se, rejeitando adaptar-se às transformações que a cercam, incapaz de reconstruir-se, de renovar-se, morre-


 

-ESQUIVEL, José Renan. “Saúde não é bem estar, saúde e luta!” Cuiabá: Ipesp, s/data.

 

26 • Documento Base – A B H P

 

rá no imobilismo, na amargura e na revolta por não acolher com humildade a provisorie-dade do seu tempo.

 

Quando uma célula rejeitar a morte, incapaz de aceitar a sucessão, ela impedirá a circulação sangüínea e a respiração interna das células mais jovens. Morrerá necrosada, destruindo as outras. Isso que vale para o ser humano vale para todo o sistema social.

 

Se um e outro rejeitar a dinâmica da sucessão, quiser preservar-se a qualquer preço, incapazes de acolher a sua transitoriedade no mundo, tornar-se-ão mortíferos.

 

Um sistema social incapaz de acolher a diferença preservando indefinidamente o “status quo”, sem as necessárias adaptações e transformações, levará dentro de si uma doença mortal contagiante.

 

A doença na célula se constitui na ausência de trocas, na acumulação, na su-pressão do movimento, na incapacidade de se adaptar, de morrer para ceder es-paço à VIDA NOVA. Da mesma forma é esta a doença do sistema capitalista gerador de MISÉRIA, de DOENÇA e de MORTE nos países do terceiro e quarto mundos.

 

Se saúde é luta em nível da célula, é essa mesma luta que precisa estar presente no sistema político, econômico e social dos nossos países.

 

 

  1. Saúde-doença; morte-vida fluxo natural da vida.

 

Acreditamos que a mudança e o movimento são oportunizados pelo ininterrup-to fluxo da vida. A célula para alimentar-se tem antes ‘fome’, seus poros eletro positivos ou negativos atraem os elementos químicos com sinais contrários; e nela, tudo é solidariedade, acolhimento da diferença, é troca, movimento e comunhão. Este ‘desequilíbrio’ em busca da vida desdobra-se através da cadeia do nascimento-crescimento-maturação-reprodução-morte. A célula viva é carente, insatisfeita e lutadora. A célula ‘satisfeita’ é a célula morta. Egoisticamente fechada em si, nada pode dar, nada pode receber. Ela está completamente ‘equilibrada’. Acreditamos por isso que há um equilíbrio para a vida e um equilíbrio que é morte. Há também um desequilíbrio que é vida e um desequilíbrio que é voltado para a mor-te. Acreditamos que certo desequilíbrio é a condição da vida e da saúde. O equilíbrio, tantas vezes padrão da “perfeição” dos nossos valores ocidentais, é na verdade a doença e a morte.

 

A Homeopatia nos parece estabelecer o movimento, o fluxo, a mudança, a sucessão e a luta. É muito mais do que uma maneira do enxergar a vida, o mundo, o ser humano de buscas, sonhos, empreendimentos, relações, criações e carências; a homeopatia é um pro-jeto, uma visão de mundo, um método de transformação das forças da morte em forças de VIDA

 

(Homeopatia, cura pelos Semelhantes, Cuiabá: IPESP, Livro 1, 1992).


A B H P – Documento Base • 27

 

  1. O ser humano com todas as outras criaturas no mundo: elos de um universo em movimento.

 

O corpo humano é compreendido pela ABHP, na perspectiva do antropólogo José Carlos Rodrigues que o entende como um “suporte de signos”. É uma construção social que permite diferentes leituras conforme o tipo de sociedade a que pertencemos. Para nós é o lugar de múltiplas relações de homens e mulheres, uns com os outros, no mundo, através da Palavra e do Trabalho, com o jeito próprio de cada cultura. Essa maneira de ver o mundo e as pessoas implica numa compreensão de um universo em movimento. Somos uma rede que dizemos os sentidos que acabam por fazer-nos a nós mesmos naquilo que dissemos. O corpo é por isso o lugar no tempo e no espaço onde nos constituímos com todos os outros “eus” do mundo. Não somos uma ilha. E, todas as coisas que existem constituem elos de uma grande corrente de vida e morte, que clama por solidariedade, co-responsabilidade e amor incondicional pelas condições de criação e circulação da vida nossa e dos outros seres vivos. Não vivemos isolados. Entre as tarefas mais inadiáveis estão: o acesso à cidadania e aos bens imprescindíveis para uma vida humana com qualidade como terra, trabalho, dignidade, moradia, justa remuneração, autonomia, emancipação, não sofrer qualquer tipo de discriminação e tantas outras; todas as condições prévias para que se possa afirmar a liberdade na parti-cipação política e a cidadania plena. Cidadania pressupõe também direito das pessoas a se expressarem com suas diversidades culturais, garantia da convivência difícil, mas em paz. Cidadania inclui ainda, atos de carinho e respeito com toda a criação, implemen-tando no cotidiano a fraternidade universal.

 

 

  1. A Homeopatia de Hahnemann e o conceito de pessoa humana.

 

A homeopatia desenvolveu, desde Hahnemann, uma prática terapêutica não-agressiva, e, portanto, ecológica . E mostrou ser capaz de recuperar, em organismos desgastados e empobrecidos, a capacidade de desenvolver a resistência e a luta con-tra as forças da morte. Hahnemann concebeu a saúde e doença, como resultado das condições gerais de vida, estreitamente interligadas a fatores materiais e imateriais. São ligadas, ainda, a fatores estruturais, hereditários e ambientais. Toda enfermidade,

Consulte “Tabu do corpo” de José Carlos Rodrigues, da Editora ACHIAMÉ. 1993 e o livro “O Normal e o Patológico” de Canguilhem.

 

Hahnemann afastou-se da prática médica dada a violência dos tratamentos da época que controlavam febres por meio de sangrias, vomitórios, aplicações de sanguessugas, altíssimas doses de medicamentos com princípios ativos venenosos que produziam choques e raramente recuperavam a saúde, e freqüentemente, produziam a morte dos enfermos. Dizia-se, naquele tempo, após estas terapêuticas: “Pelo menos, morreu curado…”

 

28 • Documento Base – A B H P

 

sobretudo, tem predominantemente sua raiz na dimensão psíquica. Demonstram a existência de uma dependência estreita entre a mente, psiquismo e os fatores biológicos particulares de cada ser humano situados advindo do ambiente e das condições econô-mico-sócio-políticas adotadas na organização das sociedades e, ao mesmo tempo, na forma própria e singular de cada enfermo fazer a sua doença. Cada organismo vivo, para a homeopatia, é um todo, único, mas jamais isolado da totalidade do universo. Hahnemann compreendeu o ser humano como uma totalidade, alimentada por pro-jetos, sonhos, desejos, necessidades e aversões influenciados por variantes como clima, sol, chuva, umidade, vento, sexo, alimentação, movimento, repouso, música, presença humana (modalidades); compreendeu ainda a pessoa humana como resultante da soma de fatores pessoais (idiossincrasias) e sócio-históricos transpessoais (miasmas), e que aca-bava produzindo no enfermo uma dinâmica própria de adoecer, e um “jeito” próprio de viver e de sentir sua enfermidade. Desta forma, a Homeopatia supera a visão estáti-ca, mecanicista, despedaçada, fragmentária e materialista do corpo humano. Recusa-se a homeopatia a ver o enfermo como desprovido de subjetividade, como um ser impes-soal ou genérico, e, sobretudo, como “paciente”. Recusa-se a ver nesta pessoa enferma um homem/mulher qualquer, como uma generalidade pertencente à espécie humana, sem rosto próprio relacionando esta forma própria com uma doença também com contornos e vivências próprias. Por isso, não se tratam doenças, ainda que as ‘mesmas’ se apresentem do mesmo jeito; não se tratam pessoas, por exemplo, com uma úlcera gástrica sangrante com as mesmas homeopatias. Esse mesmo quadro de enfermidade ou ‘doença’ não tem prioridade, nem maior importância do que a ‘pessoa’ dessa úlcera gástrica. Tratam-se pessoas, e não doenças; pessoas sempre singulares, com doenças que nelas se tornam singulares. Supera assim a homeopatia, a idéia do corpo humano como máquina (Newton/Descartes). Recusa-se também por isso a tratar “peças” isoladas des-ta “máquina”. Não entende também a doença como expressão corporal, de sintomas e desarranjos fotografáveis e visualizáveis, que são apenas os efeitos visíveis dela, ainda que sob curvas ou grandezas registradas em sofisticados exames. Tão bem disse Ivan Illich: “[…] a medicina de hoje é uma oficina de reparos ou de manutenção destinada a manter em estado de funcionamento o homem gasto por uma produção inumana10”. A ho-meopatia trata pessoas, enfim, portadoras de uma subjetividade, de uma interioridade, fruto de uma vida inteira de vivências e sentidos pessoais que significam no corpo, como suporte de símbolos, o signo, a linguagem dos sintomas, cujo sentido por vezes está muito além do expresso. Não se abafam os signos ou a linguagem, não se ‘curam’ sintomas suprimindo-os ou invisibilizando-os. É o sentido, a significação que precisa ser recuperada, para que o signo possa carregar em seu ventre uma outra significação

  • ILLICH, Ivan. A expropriação da Saúde. Nêmesis da medicina. Rio de janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1975e “A Pessoa Humana” do Padre Eduardo do Couto Ferraz.

 

A B H P – Documento Base • 29

 

não mortífera, mas sim significação saudável e de afirmação da vida que se quer viver. É no(s) sentido(s), no significante, que a doença ou a saúde tomam asas… É, neste âmbito que a homeopatia atua.

 

 

  1. A teoria Homeopática não se prende aos parâmetros da Cientificidade clássica.

 

Concebida, pois, há duzentos anos, como um protesto contra a agressividade e a fragmentação da medicina do seu tempo. A homeopatia Hahnemanniana, marginali-zada pelo delírio do positivismo e das tecnologias mecanicistas surgidas no século XIX e XX, vem no início deste milênio – passada a orgia – re/inspirar uma humanidade mais sóbria, para um projeto de vida auto-sustentável. Ainda hoje incompreendida porque rotulada por aquilo que Hahnemann não quis: como especialidade. A homeopatia hah-nemanniana recusa-se a ter carimbo classificatório da ciência moderna newtoniana e cartesiana. Sequer pode ser apreendida nos conceitos ideológicos do cientificismo, e por isso, tenta-se enquadrar a homeopatia nos quadros da ciência contemporânea, mediante testes de duplo-cego que mostram-se, sobejamente, incapazes de retê-la. Seu valor está no que ela não visibiliza dentro dos vidrinhos, glóbulos e papéis. É bom lem-brar que a ciência contemporânea sempre utilizou o carimbo de científico naquilo que dominou e restringiu. Utilizou sempre o rótulo para controlar, não para democratizar e promover a vida. Ela mesma se regula pelo conceito de morte, não pelo conceito de vida. Mais, Kuhn e Popper denunciam pelo conceito de ‘falsificabilidade’ ou ‘falsiabi-lidade’, os limites e os pés de barro da cientificidade da ciência, sempre acompanhada por sua dama de companhia, a ideologia oportunista que a torna cega. Toda a ciência pode ser utilizada com a consciência dos seus limites: é humana e histórica.

 

30 • Documento Base – A B H P

 

Confirmada, contudo, pelas descobertas revolucionárias das ciências, para além do cientificismo, especialmente no âmbito da física e da química – quânticas – e da biologia, a homeopatia volta a acalentar o sonho humano de uma vida de “Saúde igual para todos”(ESQUIVEL, s/data). A homeopatia, impulsionada num novo jeito de ser (paradigma) ainda em dores de parto, semeia esperanças para o futuro do planeta-terra nas mulheres e homens novos do século XXI, que utilizam de todas as conquistas da ciência e além das margens dela, a serviço do único que é absoluto: a Vida.

 

 

  1. A opção sim, exclusão não.

 

A ABHP, desde o IPESP, ao fazer uma opção pela homeopatia, não exclui a contribuição de outras formas terapêuticas sempre que se fizerem necessárias para ga-rantir a vida das pessoas e de todos os seres vivos. Compreende por isso a necessidade de que a homeopatia, a alopatia e outras práticas alternativas e complementares de saúde, ainda que partam de paradigmas conflitivos, complementem-se para desenvolver uma saúde de qualidade e acessível para todos.

 

A complementaridade na saúde já é uma realidade jurídica em nosso país com a aprovação da portaria 971 de maio de 2006 que obriga o SUS (Sistema Único de Saúde) a implantar as terapias complementares em seus serviços de atendimento à saú-de. A homeopatia, como terapêutica, é um direito conquistado no Brasil pela tradição de uso que a população fez e faz dela. Uma forma de utilização por vezes, dispensando a orientação de profissionais médicos. O uso e indicação popular, por outro lado, sempre existiu entre nós e, se constituiu historicamente em um direito adquirido e legítimo a serviço da população. Um uso que se ampliou para outras áreas, com repercussão na saúde humana e planetária.

 

[…] A homeopatia como prática popular tem base legal na Instrução Normativa nº 7 publicada no Diário Oficial da União (19.05.1999) estabelece as normas da produção orgânica no Brasil e recomenda a aplicação da homeopatia pelos produtores rurais. A homeopatia no meio rural é tida como proposta libertadora e humanitária. As pes-soas com conhecimento sobre homeopatia podem acelerar a recons-trução empregando os recursos da própria natureza[…]. (Rezende, J.M. 2006)11


 

 

11 Cartilha de homeopatia. Instruções práticas geradas por agricultores sobre o uso da homeopatia no meio rural. Distribuição Viçosa-UFV – MG.

 

A B H P – Documento Base • 31

 

  1. Por que a Homeopatia na ABHP se constitui num instrumento de transfor-mação?

 

A ABHP não concebe a homeopatia como um fim em si mesmo, a VIDA é o fim em si mesma, e assumiu, por isso, a homeopatia tal como concebida pelo IPESP como instrumento e ferramenta, por várias razões que abaixo passamos a expressar:

 

  1. a) Em primeiro lugar, por ela ser uma terapêutica eficaz na grande maioria dos casos, possuindo maior eficacidade em âmbitos que os outros sistemas terapêu-ticos consideram áreas difíceis de cura ou recuperação, as desordens psíquicas e mentais, o alcoolismo, a recuperação de cartilagens e discos intervertebrais, as questões neurológicas, as doenças auto-imunes, a Hanseníase, os quadros alér-gicos e de envenenamentos; possuindo, ademais, risco muito inferior a qual-quer terapêutica convencional.

 

  1. b) Por ter sido, ademais, uma prática corrente no Brasil, quando então a popu-lação, inclusive a camponesa buscava nas mercearias e nos armazéns dos sítios e das colônias, no interior do país, o Aconitum, o Allium sativum, a Belladona, a Lachesis, Phosphorus, a Bryonia e tinha, essa população noção elementar mas, correta da atuação ‘mais localizada’ destas homeopatias. Utilizavam nas pessoas que dela necessitavam, fosse a casos agudos ou crônicos e os resultados de epide-mias como meningite, febre espanhola, asiática, febre amarela possui estatísticas impressionantes de recuperação. Os laboratórios transnacionais acreditaram, então, tê-la erradicado do país, entre as guerras, e, especialmente, por volta de 1935-1950 quando parte das experiências de intoxicação química, por vezes, realizadas pelo nazismo nos campos de concentração, formaram grandes cor-porações de exportação de venenos e agro-tóxicos após a guerra, experimenta-dos intensa e extensamente no extermínio em massa de negros e judeus. Neste período as grandes empresas multinacionais de produção de medicamentos buscaram comprar, fechar e destruir as farmácias artesanais, sobretudo aquelas tradicionais. O Ipesp, desde 1981, fazia uma retomada desta memória, do uso popular da homeopatia, complementando informações, e “traduzindo-a” em linguagem popular, as pesquisas e descobertas nesta área. Queríamos, junto a outros grupos e pessoas, que o conhecimento popular se ampliasse e se in-corpore no cotidiano, com os avanços das pesquisas livres de preconceitos e controles.

 

  1. c) A homeopatia é um instrumento fundamental de ajuda a doentes mentais e, também para as crises cotidianas que todos nós sofremos nos embates com a vida, com as dificuldades sócio-econômico-culturais e políticas que nos frag-

 

32 • Documento Base – A B H P

 

mentam. A dimensão psíquica presente nas homeopatias, é um fator dos mais importantes para a saúde humana. E, é precisamente, Hahnemann quem já sa-lientava essa dimensão, e dizia que era a maior contribuição da homeopatia para a saúde e vida, sobretudo no tempo dele, em que as doenças mentais interna-vam pessoas e as tratavam como perversos sob torturas (FOUCAULT: História da Loucura). Sobretudo, neste momento da história do planeta, e da história da medicina, no qual se utilizam de forma habitual, nestes mesmos estados mentais, medicamentos com alta toxidade, graves conseqüências para o próprio sistema nervoso de sorte que precisam de controle médico rigoroso e de recei-tuários específicos, que causam dependência, e são altamente consumidos pela população, em busca de abrandar sintomas de ansiedade, medo e insegurança, que conduzem ao estresse, esgotamento nervoso e tensão permanente advindos da instabilidade ou violência da esfera do trabalho, econômica, política e social da vida das grandes cidades e dos conflitos permanentes no campo. É aqui que a homeopatia tem hoje uma indicação imprescindível dispensando, de ordinário, salvo estados em que se corram perigos, as drogas psiquiátricas.

 

  1. A prática da homeopatia, ademais, é um bom ‘motivo’ a partir do qual se podia

 

e, se pode e se deve – repensar o homem, o mundo e as diversas relações entre todo(a)s, sem os esquartejamentos aos quais somos submetidos, pelas concep-ções convencionalmente divulgadas, sobretudo, pelos Meios de Comunicação de Massas. É por isso que a homeopatia se constitui num instrumento de orga-nização social, num conteúdo importantíssimo de educação popular que per-mita uma articulação de todos pela salvação da humanidade e do planeta terra. Conduza ainda as pessoas à vivência da harmonização.

 

  1. A homeopatia é uma forma eficaz de repensar a relação das pessoas; elas com elas mesmas, para que se conheçam melhor a si próprias; e, refaçam relações novas com o(a)s outro(a)s, com a terra e com o universo ( Leia “Homeopatia: a aventura de encontrar-se no Outro” IPESP, 1995)12.

 

  1. A homeopatia é instrumento/meio extraordinário de organização da comuni-dade e dos grupos, porque estabelece a capacidade de ouvir numa sociedade surda, estabelece comunhão e acolhimento, na relação de reconhecimento e ajuda entre uns e outros, na perspectiva de uma relação humana ressignificado-

12 Tem valido para os agentes populares de homeopatia o que diz Capra acerca da relação médico-paciente. “(…) o encontro en-tre o paciente e o homeopata é uma interação intima para ambos. (…) O médico (…) não é meramente um observador passivo, protegido por uma parede de objetividade. Cada paciente envolve o homeopata de um modo profundo e significativo. Devido à própria natureza da homeopatia, o médico converte-se num participante íntimo da vida do paciente e é envolvido em todos os seus aspectos, sendo simultaneamente compassivo e sensível, bem como objetivo e acolhedor. (…) Quando a homeopatia é exercida com esse grau de envolvimento ela estimula o crescimento tanto no médico quanto no paciente.” VITHOULKAS, G. apud Capra, op. cit. p. 335.

 

A B H P – Documento Base • 33

 

ra do sentido da vida, na qual a ‘gotinha’ de homeopatia é a mediação mundana e cósmica, do uso de toda a natureza, que media solidariedade e vitalidade para o corpo e suas relações.

 

  1. A homeopatia não permite ser ‘receita’ genérica, requer que seus educadores populares ouçam e se ouçam, procurem compreender e experiência humana de sentidos, exige que se acolha as diferenças, outras significações, e respeite e reconheça a vida pessoal dos seres humanos. É, por isso, ferramenta de revitali-zação de grupos e pastorais às vezes cansados com a monotonia e a repetição ou o tratamento impessoal de massa, prestado com boa vontade, mas não sem dar-se ao tempo necessário para que se funde uma significação nova na perspectiva da saúde. A homeopatia popular ajuda as pessoas a viverem intensamente num clima de descoberta e auto-descoberta, de ternura, criatividade de produção de pessoas que se libertam e encontram o sentido da felicidade. É por ter desco-berto a alegria de viver e de libertarem-se de relações opressivas, que os agentes assumem a tarefa de compartilharem o que sabem de homeopatia com o(a)s outro(a)s. Vivem e se sentem responsáveis por compartilhar esta descoberta, tão belamente expressa pelo filósofo argelino Albert Camus e, seu Romance A Peste: “É vergonhoso se sentir feliz sozinho!”

 

  1. Oportuniza, ainda, a homeopatia – uma coisa rara na sociedade! – a troca e a democratização das informações – tão escondidas e controladas por alguns grupos dominantes desta mesma sociedade. Ela, a ABHP, possui como objetivo a so-cialização do conhecimento, a divulgação dele, para controle e acesso por todos e todas, procurando, nem movimento contrário, desprivatizá-lo. O conheci-mento institucional, inclusive o escolar e universitário, cercou o conhecimento humano – veja o educador Carlos Rodrigues Brandão, e, forjou nomes pouco acessíveis à maioria das pessoas para tirar o acesso; e o fez não para democratizá-lo, mas, para reduzi-lo a um controle de uma minoria especializada. Essa cul-tura é pérfida, iníqua e imoral. Recentemente, no país, tivemos um momento feliz, raro. Corajosamente o governo Lula lançou mão do argumento que ago-ra estamos também utilizando, para justificar a fabricação de medicações para AIDs por laboratórios brasileiros. É que estas medicações estavam sob controle de corporações privadas, interessadas na exploração econômica destes recur-sos, pondo a vida das pessoas em segundo plano. Ora, é direito humano ter acesso a informações das quais dependam a vida, sem que qualquer grupo ou corporação possam restringi-lo, sob pena de ferir o direito humano subjetivo, que põe a vida em risco. A ABHP entendeu isso, desde o IPESP, que saúde era dom precioso demais para ser restringido a mãos de especialistas, tem por isso

 

34 • Documento Base – A B H P

 

como dever ético, incoercível, proclamar o direito de divulgá-lo amplamente para superar toda ignorância e toda a restrição do que pertence à humanidade emancipada e autônoma. Basta-nos de escravidões no século XXI!

 

  1. Só é possível reivindicar o que se conhece. A homeopatia popular quer populari-zar a homeopatia e abrir espaço de reivindicação do direito de poder ser tratado por profissionais médicos homeopatas na saúde pública, com direito ademais à dispensação gratuita, sempre que necessária, à população, da medicação ho-meopática. Trata-se apenas de condição de isonomia, de tratamento igual ao dispensado para a alopatia. É dever do Estado promovê-lo, sem casuísmos. É necessário, que se compreenda o que se quer reivindicar, que se tenha conheci-mento do que a homeopatia faz e pode fazer direito constitucional assegura-do aos pacientes. As pessoas dos setores populares reivindicam se tiverem feito a experiência da homeopatia e que a conheçam como terapêutica paralela ou alternativa, para que reivindicá-la ou decidir entre as terapêutica convencionais, alternativas e complementares, o que lhes pareça melhor, mais seguro e menos danoso, para a saúde e vida.

 

  1. A homeopatia é uma ferramenta imprescindível de prevenção das doenças. A teoria dos miasmas fundamenta a possibilidade de tratar a dinâmica pessoal do enfermo de sorte que ele possa evitar eclosão de doenças para as quais, tendo propensão, e que poderá vir a desenvolver em si. Já, os processos de medicaliza-ção em curso mantêm a lógica da força e da guerra. Gera um jogo de extermínio de microorganismo, fungos, bactérias sem que as “baixas’ desta guerra sejam suficientemente avaliadas. Muito semelhante à lógica do secretário de segurança do Rio de Janeiro que promove uma guerra contra o ‘narcotráfico’ no “Morro do Alemão” no Rio de Janeiro, na qual a população está entre parêntesis, na queda de braço entre bandido e polícia. Distribui-se, – e está divulgado plena-mente pela OMS – medicamentos desnecessários, indutores de enfermidades, cujo quadro pode ser atenuado por medicações de uso contínuo, para sedação de sintomas causado pelo medicamento anterior. Há, na forma de tratamento convencional a subestimação da vacinose produzida pela BCG, da iatrogenia resultada de uso indiscriminado de antibióticos, corticóides, antiinflamatórios. Somente um justo equilíbrio entre processos terapêuticos ‘ilhados’ e contro-lados pela mercantilização da doença por grande grupos transnacionais, e, a vigilância e o controle pelos enfermos e pela comunidade consumidora, criando mecanismos novos em novo conceito de Direitos humanos, poderá gerar por pressão, e mecanismos jurídicos-políticos, políticas públicas que permitam um justo equilíbrio à saúde de cada um(a) e do planeta.

 

A B H P – Documento Base • 35

 

V – Popularização da Homeopatia: a luta continua…

 

 

  1. Homeopatia uma memória garantida pela resistência de um povo

 

Rigorosamente falando, uma homeopatia popular, no Brasil, não inicia apenas agora. Sempre houve pessoas que tendo aprendido com seus avós ou pais o uso e re-conhecimento de homeopatias, faziam uso delas em situação de doença13. Quase não há recanto no país que não tivesse conhecido as boticas homeopáticas distribuídas por mascates e vendeiros tanto nas cidades como no campo e sertões. Esta história ainda recente, mas apagada da memória nacional e negada em parte pelas multinacionais de medicamentos e pela versão burguesa da História que só reconhece a intervenção das elites, nem por isso deixou de salvar vidas durante as epidemias deixando milhares de páginas de registro acessíveis aos que nela se interessarem. Não se pode ainda ignorar a resistência dos médiuns Kardecistas que dela faziam uso no atendimento às enfer-midades nos seus Centros Espíritas. Em Mato Grosso, onde sediaremos este Segundo Congresso Nacional de Homeopatia Popular, para citar pelo menos duas figuras his-tóricas que marcaram as populações empobrecidas com suas atividades, tivemos o Frei Canuto e Frei Valete, cujas informações e conhecimento de homeopatia foram precio-sos para orientar pessoas e salvar milhares de vidas. É da maior importância os traba-lhos de pesquisa da Profª Drª. Madel Luz sobre a História da Homeopatia no Brasil demonstrando que todo o processo organizativo da homeopatia sempre encontrou o conflito, pela importância que ele tem, de portar uma proposta importante e autono-mia e de relativização do poder dos processos instituídos.

 

 

  1. A homeopatia Hahnemanniana: da ‘especialidade’ a um serviço de atenção básica na saúde pública

 

A Homeopatia reconhecida como Especialidade Médica vem das catacumbas para ser interlocutora oficial nos Congressos e Associações Médicas. “Para ganhar e para perder, necessariamente14”. Reconhecida pela institucionalidade paga o alto preço de constituir-se uma das tantas “especialidades” – que como vimos não é (vide item 25) – no fragmentado universo da medicina ocidental, sua elevação e acesso recente aos cor-redores das ciências, ainda não registra presença fundamental no panorama da Saúde Pública no país. Em parte boicotada a presença da Homeopatia nos postos de saúde por

  • Ver sobre isso DINAMIZANDO Ano 3, n°05, p.1: “Monteiro Lobato -Homeopata do povo” (transcrição da Revista Similia N° 65.

 

  • Veja “DINAMIZANDO” Ano 02, n.4,: “Homeopatia reconhecida como especialidade médica” pág.

 

36 • Documento Base – A B H P

 

muitos profissionais especialistas. Ela continuou assim opção cara, inacessível, ignorada em um dos seus principais papéis o de ser uma prática de prevenção às doenças. A home-opatia aliada às atenções primárias seria ferramenta indispensável nos surtos e epidemias. Há uma surda barreira que não quer ouvi-la. Ela que enfrentou de modo espetacular no Brasil15 as epidemias de cólera, gripe espanhola, da febre amarela16 demonstrando índices extraordinários de recuperação (de até 96% no Dispensário S. Vicente de Paula – RJ, no ano de 1851), poderia enfrentar e retardar o relógio do tempo, que marca o momento em que os antibióticos conhecidos não mais controlarão os microorganismos patogênicos. Ainda assim, utilizam-se antibióticos indiscriminadamente, e, sobretudo, irresponsavel-mente, associando três, quatro, cinco antibióticos simultaneamente, sem controle pleno do que virá a afetar no corpo humano. Há preocupação mundial com esta calamidade que se aproxima. Estão sendo regulamentadas, nos sistemas públicos, em nível mundial, comissões de controle das prescrições médicas de antibióticos, tão grave resulta seu uso intensivo e extensivo. A homeopatia parece invisível nesta luta, quando ela tem por arte a recuperação do sistema imunológico e garantia de drenagem dos metais pesados, a desin-toxicação de venenos que circulam na alimentação por excesso de agrotóxicos e favorece o controle biótico dos radicais livres. É, sobretudo, nesta dimensão que temos pensado a Homeopatia Popular para a ABHP. Uma vez que entre as disputas de espaços nos gran-des domínios científicos e tecnológicos dos sistemas de saúde, e as terapias alternativas e complementares, existe ainda uma terra de ninguém a da homeopatia a serviço das gran-des endemias, de sua utilização na reincidência da dengue, da tuberculose, da hepatite, da febre amarela, da Doença de Chagas, da hanseníase, malária, da leishmaniose agora na área urbana, do câncer. Este campo parece ainda não despertar cobiças, tão privatizada a medicina está e tanto compromisso existe entre gestores públicos e grandes empresas de serviços, laboratórios de exames e de distribuição de medicamentos, terceirizados!

 

A homeopatia que chegou ao Brasil em 1840 com o socialista Benoît Mure (Bento Mure – discípulo de Hahnemann em Paris – o qual se notabilizou pelo compromisso com a saúde coletiva), deixe, hoje, os consultórios e vá para as praças, do centro volte-se às periferias, das cidades para os sertões, assumindo as questões mais relevantes da saúde pública como missão que lhe é própria. Ultrapasse o seu monumental trabalho com a pessoa humana individual e particular – extremamente necessário que também aconteça -, e adentre na arena das mais importantes questões que afeta o conjunto da população empobrecida no país, numa perspectiva de uma medicina social e de saúde coletiva.

 

  • Também o fez no México, na França (Bergeret, Pommier e Mercier), na na Inglaterra(Danna Ulmann) e na India (Sharma) -onde se obteve espetaculares curas da cirrose hepática (Ver sobre isso DINAMIZANDO n°1, ano0, p. 4) disseminada no país e ultimamente negativação da AIDS (Ver sobre isso a comunicação do Dr. Matheus Rocha à imprensa, divulgada no DINAMIZANDO Ano 05, n°13, p. 7).

 

  • Ver sobre isso DINAMIZANDO Ano 3, n°05, p. 3: “Homeopatia e a cura da Febre Amarela”.

 

A B H P – Documento Base • 37

 

  1. Paradigma contemporâneo: uma visão holística na ABHP

 

A medicina Ocidental se apóia em duas teorias: a teoria dos microrganismos de Pasteur e na teoria das estruturas celulares de Rudolf Virchow. A via inaugurada por Pasteur responde apenas a uma pequena parte de doenças da humanidade17. E a teoria de Virchow afirma que todas as doenças residem a fatores estruturais ao nível das células. Virchow inaugura, pois, a concepção médica contemporânea de que através de uma engenharia celular explica-se e resolve-se a doença ou a saúde da humana. Com novas descobertas as causas descem ao quase invisível, nos genes e cromossomos, mas invariavelmente numa dimensão estritamente biofísica.

 

Nós, da ABHP, nos contrapomos a essas visões que possuem uma explicação, exclusivamente, materialista e parcelar do organismo humano, baseadas em microrga-nismos patogênicos18 ou mudanças biológicas micro-estruturais. Ambas voltadas para doenças e cegas para aquilo que dá vida ao ser humano! Boff dissera, no prefácio da primeira edição de nosso Documento-Base há dez anos atrás: “[…] é a Vida que cura a Vida!”

 

Sempre optamos por um paradigma diferenciado, hoje chamado dialético e holístico. E, compreendemos que as explicações acima são apenas fatores concorren-tes para saúde ou doença, não sendo, porém os fatores decisivos . A mera presença de microrganismos patológicos no corpo humano não determina necessariamente a enfermidade. Também a existência de fatores hereditários habitualmente não indica a eclosão da enfermidade, muitas vezes deflagrada por fatores nóxios (a gota de água que faltava), ou desencadeadas por perdas afetivas, traumas, fatores emocionais, sociais, econômicos e políticos. Acreditamos, portanto, que a pessoa humana, enquanto ser socializável e cultural possui em sua mente, um suporte simbólico e intersubjetivo, capaz de determinar em grande parte de maneira mais decisiva quando, como, em que condições, de que maneira, e, mesmo porque ficar enfermo. Também possui uma vivên-cia, uma espiritualidade de caráter transcendente, por vezes nominada “Deus”, e que introduz o sentido positivo e salvador da vida individual e coletiva, na perspectiva da fraternidade, da ternura e da doação da vida para e pelos outro(a)s.

 

 

 

 

 

  • Como explicar então que tantas pessoas convivem com o bacilo de Koch, e com o bacilo de Hansen e, nem por isso, contraem a tuberculose ou a Hanseníase? Foi o próprio Pasteur que após ter inaugurado esta via explicativa observou no fim de sua vida: “Se eu tivesse que impreender novos estudos […] dirigiria meus esforços para as condições ambientais que aumentam seu vigor e resistência.” apud CAPRA, O ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1995. p.122.

 

  • Bactérias, Fungos, micróbios e vírus.

 

38 • Documento Base – A B H P

 

  1. Paradigma Hahnemanniano

 

Coincidentemente, o retorno a Hahnemann converge para um novo paradig-ma. O novo paradigma de compreensão opta por um modelo integral, orgânico e holístico da saúde humana. Inclui as questões sócio-político-simbólicas, uma visão de ecologia humana e um manuseio sustentável das relações com os recursos para gerar vida. Pressupõe a valorização da inteligência, compreensão e autonomia. Contempla as questões psicológicas, afetivas e mentais. Gera criatividade, inventividade. Valoriza a intersubjetividade: ninguém é ‘paciente’, todos somos sujeitos de nossa saúde ou doença. Está suposta uma relação de autonomia dos sujeitos e de inteligência em face ao seu corpo. Inclui, também, o diálogo com outras medicinas, as oficiais, as paralelas, as alternativas, as complementares, e a necessidade de por no lixo da história a pressu-posição de que detemos em nos nossos precários modelos sanitários toda a verdade, o que já é, por si mesmo, uma insanidade, ignorância e mentira, fruto de uma ideologia perigosa. A Homeopatia não se ampara na certeza do conhecimento, em diagnóstico definido e preciso; se alimenta da arte interpretativa que requer sensibilidade, perspicá-cia e inteligência. Ao se ler a ‘Segunda Prescrição’, capítulo de James Tyler Kent na sua “Filosofia homeopática” estamos diante de uma ciência contemporânea e não da máqui-na Newton – cartesiana de receitas prontas ou tiradas do computador: derrubam-se as certezas e os dogmas. Fica em crise todo o absolutismo e o fanatismo. É preciso estudar, é preciso compreender, é preciso, sobretudo transformar uma floresta de informes num ‘caso’. Não há conhecimento verdadeiro sem imaginação (Rubem Alves: Filosofia da Ciência: seu jogo e suas regras,).

 

 

  1. A homeopatia que fazemos é em parte igual…e em parte diferente.

 

Tecnicamente, a homeopatia popular estudada na ABHP é antes de tudo uma Homeopatia Hahnemanniana nos seus princípios básicos: a Lei dos Semelhantes, a Lei da experimentação em organismos vivos sadios, a Lei dos processos da diluição e dinamiza-ção, a Lei do medicamento único e, quanto possível, personalizado19. Neste sentido ela é igual. Parte dos mesmos princípios e utiliza-se das mesmas técnicas de produção. O medicamento em si é o mesmo. Ainda que se criem outros tantos, ainda não experi-mentados com o protocolo oficial.

 

A principal diferença entre a homeopatia oficial e a popular, reside no fato da primeira ter por agente um(a) médico(a) com formação técnica e práticas reconhecidas e institucionalizadas formalmente pela sociedade, a(o) qual se agrega, hoje, um curso de ‘especialização’ em Homeopatia. O Portador destes atributos, por isso, de presumível

 

 

19  Há quem indique um só medicamento homeopático sem que o personalize

 

A B H P – Documento Base • 39

 

conhecimento e de técnicas sistematizadas, tem respaldo institucional e legal para in-tervir nos casos de doença e prescrever. No segundo caso temos um(a) agente popular, em cuja aprendizagem, antes, o IPESP, atualmente a ABHP contribui, mas o seu reco-nhecimento não é a ABHP que confere, porquanto ele passa pelas relações que este(a) mesmo(a) agente desenvolve no seu grupo de origem e no seu trabalho com o povo. Ele não se faz agente através da ABHP. Ele(a) chega à ABHP através da comunidade, pasto-ral, movimento, grupo no qual está inserido(a). O reconhecimento passa pela confian-ça que o grupo adquire na eficácia do que ele(a) faz. Não é ele(a) que se escolhe, mas o povo de sua comunidade que o elege. E esta escolha não se configura pelos padrões estabelecidos pela institucionalidade que temos. Ele(a) recebe legitimação dos padrões culturais das raízes negras e indígenas, das regras de prestações e contraprestações de serviços e de solidariedade, bem como as estruturas de parentesco que regem as relações cotidianas de nossa sociedade – invisibilizadas propositalmente pela institucionalidade legal. Ele(a) se legitima, ademais, pelos estatutos éticos subjetivos, religiosos, míticos e místicos, simbólicos portanto, que se antepõem se necessário, quando em conflito, à lei positiva.

 

 

  1. A homeopatia popular não carece de protocolos necessários para uma Homeopatia oficial

 

A homeopatia popular é ainda distinta da homeopatia oficial porque cria empiricamente a partir da Lei dos Semelhantes, de Hahnemann, homeopatias novas, dentro do repertório que a natureza oferece ao agente. Em alguns casos, este mesmo agente, recebe auxílio de outras pessoas da comunidade para diluir, succionar – dinami-zando – recursos fitoterápicos e outros que lhe são acessíveis. Aqui reside uma diferença da homeopatia popular em relação à homeopatia oficial, dado que aquele(a) que indica a homeopatia, é assessorado ele mesmo por outras pessoas da comunidade na confecção das homeopatias que irá usar. Ora, descobrir novas homeopatias, pressupõe a inteligên-cia da compreensão básica de como a homeopatia se estrutura e atua, e da apropriação criativa dos princípios dela, transpostas para situações inteiramente novas. De sorte que, grande parte dos recursos utilizados pelos agentes não foram ainda pesquisados, e, por isso não constam nas Matérias Médicas oficiais, e com certeza, constituiriam uma riqueza empírica a ser corroborada pela pesquisa técnico-acadêmica no Brasil.

 

40 • Documento Base – A B H P

 

  1. A Homeopatia Popular, nem melhor nem pior… É uma “outra” homeopatia

 

A homeopatia popular distingue-se ainda da homeopatia oficial, pelas relações que gera entre os agentes e o povo. Trata-se de um(a) agente endógeno(a), isto é que vem de dentro do seu grupo, ligado (a) àquela diversidade cultural, e que reveste a relação enfermo(a)-agente de saúde com um significado inteiramente novo. Trata-se ainda de um sentido que produz estas mesmas relações por um modelo diferenciado do modelo médico-paciente. É uma relação distinta por sua intencionalidade, porque o agente se sabe não-médico, se sabe um não-técnico, e aquele que o busca sabe do caráter prático dos seus conhecimentos, e não o dispensa como agente colaborador de sua saúde. Eles (elas), educadores populares de saúde ligados à ABHP se reconhecem a si mesmos como agentes de saúde militantes a serviço da sua comunidade. Os serviços destes(as) agentes são cobertos apenas nos gastos imprescindíveis e na relação de solidariedade, de sorte que a comunidade provê vidros, álcool de boa procedência e contribui precariamente na manutenção dos seus trabalhos. O que garante a continuidade e persistência deste atendimento é, em última análise, o fato de sua atividade estar ligada a uma tradição de medicina familiar, tribal, ou de clãs, que se fundamenta em diferentes laços de confiança e de reciprocidade que variam de grupo para grupo. Diferente da cultura da modernidade em que a autoridade provém ‘de fora’ e por ‘investidura’ – aliás, como na Idade Média – as sociedades orgânicas, sem Estado, com raízes negras, indígenas que compõem o caldo da cultura da sociedade brasileira, conferem o poder aos seus raizeiros, agentes populares de saúde, a partir de qualidades internas aos próprios indivíduos em um complexo jogo de critérios de reconhecimento de domínio apenas do próprio grupo. É somente a partir destas relações que o agente de saúde da homeopatia popular se referencia e encontra re-conhecimento e lugar que lhe é próprio, na estrutura de solidariedade e de serviços neces-sários à vida. As relações saúde-doença só podem ser compreendidas em uma perspectiva antropológica, é também por essa dimensão que é relação indispensável e constitui direito à sua diversidade cultural.

 

 

  1. A legitimação do trabalho dos agentes vem do próprio povo e do estatuto ético de buscar saúde e vida como direito subjetivo constitucional

 

ABHP contribuindo na orientação e acompanhamento dos serviços dos educa-dores populares de homeopatia, testemunha que a qualidade dos serviços da homeopatia popular, realizada por estes – dentro das condições adversas que lhe são impostas pela institucionalidade – tem sido de valia extraordinária, representando um patrimônio de vida e a garantia de salvação de milhares de vidas. A qualidade dos serviços é garantida e produzida com/pela comunidade, de sorte que a mesma comunidade beneficiada dispõe

 

A B H P – Documento Base • 41

 

sempre de controles ativos e específicos ao sistema social daquele grupo ao qual, o agen-te/educador é parte, para sancioná-lo. Em última análise, a legitimação da atividade do agente é “endógena”, isto é interna e de controle do próprio grupo. É o grupo que legitima ou deslegitima as atividades do agente popular de homeopatia ou saúde, na medida em que o procura, e recebe dele a orientação necessária, participando ativamente de todas as suas atuações. Sua credibilidade advém de um sistema de reciprocidade, de confiança, e aprovação das pessoas à sua atividade. Não existe, de ordinário, conflito na utilização de ambos sistemas. A maior diferença reside nas comunidades indígenas, mas elas absorvem a coexistência de ambos sistemas, o sistema médico oficial serve para tratar doenças de branco, e o sistema indígena para tratar doenças de índio. As primeiras buscam desordens materiais como causalidade, as segundas operam nas dimensões espirituais e simbólicas. É necessário ler a prática de saúde popular dentro da perspectiva da etnomedicina, compre-ender que a cura sempre compreende uma leitura referenciada a partir das especificidades de cada grupo. A medicina do branco possui um viés etnocêntrico e de branquidade20: é discriminatória e racista. Difícil compreender que ao discurso racista seja imputado crime constitucional e a ação de tratamento e ação discriminadora da medicina branca contra formas populares ou xamânica possa parecer justificada.

 

  1. Ao povo: Homeopatia popular ou homeopatia nenhuma! A luta continua…

 

A primeira homeopatia raramente feita por médicos que eram raros, era acessível ao povo. Hoje – salvo migalhas – e em grandes centros urbanos onde médicos se acumu-lam, ela é praticamente vetada aos setores populares pelo alto custo que ela representa. Houve desinteresse do ‘mercado’ em torná-la legalmente gratuita nos Serviços de Saúde pública e em convênios. Restringiu-se seus serviços a migalhas oferecidas como esmola ou concessão, e não como direito. Poucos são ainda os profissionais da área. Os que existem – por sobrevivência –, residem em grandes áreas urbanas. O custo do atendimento destes profissionais (não é tão caro se comparado ao tempo gasto pela maioria dos médicos alo-patas) é desproporcional aos salários dos que trabalham e mais ainda daqueles inúmeros brasileiros que estão condenados ao desemprego. Colocando objetivamente, permanece o problema posto por nós há dez anos atrás: para o povo, no Brasil, salvo raríssimas exceções, trata-se de o povo ter acesso à homeopatia dos educadores (agentes) populares, ou não ter acesso a homeopatia nenhuma. A portaria 971 de Maio de 2006 ainda é uma lei, não uma prática. Garantir sua implantação, mecanismos de funcionamento e efetividade é luta que demandará envolvimento de todos e de todas. Enfim, a popularização da homeopatia ainda se constitui numa bandeira de luta, para que a população possa com conhecimento exigir seus direitos.


 

20 Veja, disponível em Internet, no site do Instituto Humanitas – Revista IHU, eletrônica, semana de 10-15 de Julho, entrevista de Peter McLaren

 

42 • Documento Base – A B H P

 

  1. A justa e necessária parceria da Homeopatia popular e a rede pública de serviços de saúde

 

A Homeopatia popular não quer a substituição da medicina homeopática do(a)s técnico(a)s médicos(as), nem a substituição do dever do Estado no provimento da saúde pública. O Estado recolhe impostos e taxas da população, justificando a ne-cessidade de recursos para prover a seguridade social. Organizar serviços substitutivos ao Estado, e os quais ele não executa, seria onerar uma vez mais os(as) cidadãos(ãs), permitindo que os recursos auferidos para este fim, fossem transferidos para atividades impróprias, como historicamente costuma acontecer. Por outro lado, impedir acesso e uso de recursos acessíveis e deixar cidadãos morrerem à míngua, é uma omissão grave. Em face da morosidade dos atendimentos graves e de urgência fica vetado ao Estado impedir o acesso à saúde popular e ao sistema popular de produção solidária da saúde. Não se pode substituir com formas artesanais e micro-ações solidárias no campo da saúde, a rede pública oficial e técnica. Ela é imprescindível, pois mobiliza dimensões de tecnologia imprescindível saúde, e somente ela possui extensão tão abrangente que poderia tornar acessível a todos os(as) brasileiros(as) indistintamente recursos de com-bate a doenças, endemias e garantir a prevenção e a assistência médica para todos bem como a promoção da saúde. Temos consciência da limitação de um trabalho de saúde que se reduzisse somente ao tratamento de doenças, mesmo que esse fosse apenas de homeopatia. Não se produz saúde pública atendendo apenas ‘a doença’ e são aqui que as ações complementares e alternativas são imprescindíveis. Saúde pressupõe estruturas de higiene, recolhimento de lixo, tratamento de água e esgoto, garantia de trabalho, salário digno, terra, teto, participação e liberdade aos brasileiros(as). A homeopatia popular, da forma como a ABHP a concebe, é, sobretudo, um instrumento de organi-zação da luta mais geral pela saúde e pela Vida, como exercício de cidadania.

 

 

  1. Para os setores populares Saúde não é apenas fruto de tecnologia e sim inter-relação com pessoas, saberes e outras práticas.

 

Sempre houve no país uma medicina ligada aos setores populares, negada e invisibilizada pela institucionalidade e muitas vezes perseguida. Perseguição que se origina na incompreensão de que para os setores populares, o médico administra ape-nas uma parte das atividades necessárias para o restabelecimento da saúde. As práticas dos médicos sempre são complementadas por outras relações simbólico-culturais, em alguns casos, religiosas como passes, imposição das mãos, xamanismo, administração dos sacramentos, emplastros, exorcismos, banhos, defumações, benzeduras; em outros casos, o conselho, a presença, o carinho, o toque, a massagem, o chá; que estão, entre

 

A B H P – Documento Base • 43

 

muitas outras práticas, situadas muito além das tecnologias puras. “É precisamente por isso que estas práticas, a médica e a popular, para nosso povo, não são nunca excludentes, e sim complementares” – afirmação, esta, que se encontra no Documento-Base do IPESP, há dez anos atrás. Entendemos que a portaria do Governo contempla o que já dissé-ramos não como propriedade nossa, mas como reivindicação antiga dos movimentos populares no Brasil.

 

 

  1. Lutamos pela complementaridade e integralidade na saúde pública: todos so-mos imprescindíveis.

 

Os(as) agentes populares que trabalham com Homeopatia não substituirão o trabalho dos médicos(as) homeopatas e os serviços dos técnicos(as) da área de saúde, os quais têm por obrigação e tarefa própria, possuir uma abrangência e aprofunda-mento muito maior de informações, com interações no conhecimento técnico siste-mático de biologia, fisiologia, anátomo-patologia e assim por diante. A homeopatia popular constitui uma forma supletiva de tratamento quando há omissão dos serviços técnicos de homeopatia à população empobrecida, e constitui também forma com-plementar imprescindível de relação humana a serviço da vida, celebração simbólica e gestual do cuidado com toda a vida, forma de carinho e inter-ajuda e de apoio mútuo (VALLA), que vai muito além da doença e das formas e rituais profissionalizados de tratamento. É próprio da filosofia da ABHP que os(as) educadores (agentes) populares não-técnicos(as) que atuem com homeopatia popular, jamais se declarem médicos(as) que não são. A saúde se não pode prescindir da intervenção técnica dos médicos, precisa muito mais do que cuidados médicos. A ABHP cobra do governo os serviços de Saúde para todos. Cobra, ainda, a regulamentação da recente portaria 971 de maio de 2006 – que se constitui em um avanço -, mas que ela venha implementar a integra-lidade e as práticas complementares com os diferentes agentes que produzem saúde, para além daquele técnico, o agente médico. A ABHP afirma o equívoco perigoso da forma como se instituiu o ato médico, é constituí-lo como exclusividade, tanto na ofer-ta de tratamento de doenças quanto de restabelecimento da saúde. Não se terá saúde com qualidade no nosso país, enquanto não for diversificada a atuação de diferentes protagonistas e educadores com identidades próprias, objetivos específicos e práticas culturais diferenciadas, que incluiriam necessariamente não-médicos, xamãs, curandei-ros etc.. Reconhecemos, além do mais, a necessidade de tarefas supletivas, cooperação de recursos de todos os cidadãos, promovendo acesso aos serviços básicos de saúde para todos, pois a escassez de recursos acaba por restringi-los. É necessário estreita coopera-ção do(a)s agentes de saúde. Não há, nesta conjuntura perversa, mudanças estruturais -, condições de atender o(a)s enfermo(a)s, num país tão extenso, com uma população

 

44 • Documento Base – A B H P

 

tão grande, sem uma contribuição efetiva do(a)s educadores (agentes) populares de saúde. Mais. A ABHP defende o projeto provocativo de que se construa com o apoio do Estado no Brasil uma cooperação, com a justa autonomia, entre serviços técnicos e não-técnicos, de forma que a vida e saúde dos diferentes brasis, possa também ter tratamento diferenciado, com maior efetividade de recursos e apoio aos mais pobres, de sorte que a vida possa ser considerada um valor maior do que a defesa de interesses de mercado, de corporações e de ideologias.

 

 

  1. Não estamos sós… Nossa causa é a causa de um povo

 

A ABHP saúda com entusiasmo as comunidades que procuram dia-a-dia tor-narem-se sujeitos de sua própria saúde, sem deixar de reivindicar os serviços técni-cos imprescindíveis e aos quais têm direito. A Associação sabe da simpatia e apoio de muitos setores da sociedade como professore(a)s, pesquisadore(a)s, profissionais libe-rais, sindicalistas, agentes e militantes dos movimentos populares, ecologistas, artistas, político(a)s, líderes religioso(a)s que acreditam, apóiam, contribuem e defendem o tra-balho do(a)s educadores populares de homeopatia como serviço à vida.

 

A Associação conta ainda com o apoio solidário e político de médico(a)s, entre este(a)s homeopatas, técnico(a)s da área de saúde, odontólogo(a)s, enfermeiro(a)s, bioquímico(a)s, psicólogo(a)s, terapeutas naturistas, que em muitos lugares, e de tantas formas, vem apoiando direta ou indiretamente os trabalhos do(a)s educadores popula-res de homeopatia. Este apoio técnico é, sobretudo, um serviço de avaliação, formação e aperfeiçoamento destes mesmos educadores, que reflete diretamente numa melhor qualidade de serviços de homeopatia à população empobrecida, por vezes, exclusiva-mente atendida pela ação destes educadores. Em especial, devemos dizer do trabalho sistemático e corajoso da Universidade Federal de Viçosa-MG que vem se tornando re-ferência nacional na pesquisa, divulgação e sistematização dos conhecimentos acerca da homeopatia técnica e popular, seja no atendimento à pessoa como no uso e aplicação da homeopatia na Agroecologia. Trazemos ainda o apoio direto e sempre respeitoso da ATENEMG através do Professor José Alberto Moreno.

 

A B H P – Documento Base • 45

 

VI – O Congresso e a mudança de paradigmas

 

 

  1. Possibilidades e limites da mudança de paradigmas

 

Nosso II Congresso celebra esse novo milênio. Possibilidade sonhada de partu-rição de uma nova humanidade. A situação do aquecimento global, da qual o Brasil é o quarto maior produtor mundial de poluentes que causam destruição ecológica, pre-dação de espécies vivas, e modificações climáticas irreversíveis, seguidas de fenômenos avassaladores como destruição das geleiras, aumento do nível dos oceanos, ciclones e terremotos, catástrofes vitimadoras de milhares de vidas humanas e de animais, e são os empobrecidos, negros, indígenas, que se situam em lugares mais expostos a perigosos ou catástrofes, sem recursos para garantir a saúde e a vida. O episódio de Chernobyl não pode ser passado a limpo, porque as versões acerca deste acontecimento foram maquiadas pela imprensa, denúncias de Depuys, realizadas em palestras e exposições de fotos e filmes no mundo inteiro, mostram o massacre e as conseqüências até hoje presentes na produção de deformidades, mutações genéticas graves e mortes precoces. No entanto, fala-se de energia atômica limpa. O governo brasileiro tem investido na construção de Angra III. Sabe-se que o Brasil, como poucos países do mundo, pode-ria desenvolver pesquisas sobre a energia solar, que também é fruto de fissão nuclear, mas a uma distância praticamente inócua, resguardada a manutenção da camada de Ozônio. Há, por isso, do ponto de vista ecológico uma consciência cada vez maior de interdependência de todo(a)s com a natureza, para sobrevivência de cada um. Este é um avanço importante para estabelecer relações planetárias. A economia Neoliberal tem usado, por sua vez, desta mesma planetaridade e de propalada “cooperação”, para que os governos fortes dos países capitalistas centrais infrinjam um endividamento criminoso aos países pobres, cada vez mais dependentes e excluídos geopoliticamente. Coletiviza-se mais do que nunca o espaço e acelera-se o tempo. Constrói-se uma cul-tura de massa, contudo, centrada num forte apelo para o narcisismo individualismo. Cresce um sentimento universal de valorização da biodiversidade e de novas relações com o ambiente, enfatizando uma ecologia humana. Novos horizontes se abrem pela biotecnologia garantindo preservação das espécies em extinção, produzindo espécies mais resistentes. Mas, ao mesmo tempo, disseminam-se plantas geneticamente modi-ficadas e seus subprodutos inclusive no leite e produtos para consumo infantil (Nestlé, Ovomaltine): experimentação permitida e livre nos países empobrecidos e interditada, com normas de segurança, nos países ricos. Os transgênicos estimulam a dependên-cia, por importação de espécies híbridas, e vendem-se com eles pacotes tecnológicos de associações como drogas secantes para a soja, agrotóxicos para algodão e cana. Ao mesmo tempo em que são descobertas tecnologias que avançam pela sobre recursos

 

46 • Documento Base – A B H P

 

naturais, é aprovada a lei de patentes brasileira que permite alienar recursos do nosso país, sobretudo da Amazônia para pesquisas fora do país. O Projeto Genoma sequer respeitou limites étnicos e levou para fora do país, sangue da população Yanomami para mapeamento genético. Sofisticam-se, assim, a pirataria biotecnológica.

 

 

  1. O congresso de Homeopatia Popular neste milênio

 

Um Congresso de Homeopatia Popular, neste momento, aposta nas transfor-mações em curso das relações econômicas em forma de economia solidária, grandes perspectivas de dar a justa centralidade às populações autóctones, indígenas e as popu-lações afro-descendentes que fizeram a riqueza deste país com seu suor e sangue. Há grandes esperanças de que novas relações mundiais alterem as formas de dominação imperialista de plantão, necessitando da unidade de nossos povos latino-americanos, anseio – de certa forma – da humanidade toda. Primeiro, porque se divisam grandes rupturas e perspectivas de inovação. Ninguém pode eticamente furtar-se ao compro-misso de reinventar, gestar e partejar o novo mundo que está por nascer. Esta mudança civilizatória já aponta o declínio do Patriarcalismo. O(a)s protagonistas populares da saúde são em grande maioria mulheres. A face delas empresta uma presença marcante, amorosa, educativa e criadora: um novo rosto para as tecnologias, as ciências e para o próprio Planeta. Segundo, porque vencida a arrogância da Razão Moderna pode a humanidade com mais humildade procurar construir uma qualidade melhor de vida para todos, a partir de verdades provisórias, das dimensões de localidade e das riquezas das diversidades. Procurar-se-á superar a compartimentalização e a especialização do conhecimento humano, vencendo as fragmentações que hoje ainda nos impedem de compreender melhor o mundo por meio de uma visão mais globalizada, orgânica e holística que se afine melhor com à natureza cósmica do mundo. Terceiro, por fim, porque a injustiça e a violência e a ausência permanente da paz, convocam todo cida-dão para num esforço coletivo reconstruir a condição de vida para toda a humanidade. Trata-se de reconstruirmos nossa própria humanidade por relações econômicas abertas à compaixão universal. Precisamos educarmo-nos, finalmente, para relações materiais e sociais democráticas e solidárias. A homeopatia popular é um pouco disso tudo acima: sonho e projeto-de-realidade na ótica dos excluídos. Isso nosso Congresso pretende existencializar.

 

A B H P – Documento Base • 47

 

Considerações Finais

 

 

  1. O futuro da homeopatia popular

 

Às vésperas da parição de um novo mundo feito por nós em diálogo com o tempo, voltamos às fontes de nossa memória. Retomamos tradições dinamicamente ressignificadas por uma releitura a partir da ótica, de quanto somos coisificados e opri-midos por processos sociais esterilizados de qualquer ternura. Reencontramo-nos assim com as raízes da nossa cidadania-terrena. Nós educadores populares organicamente li-gados à ABHP inauguramos já há uma década – e naquela época, sem toda consciência que temos hoje – um caminho fecundo de uma homeopatia popular que pode servir de interlocução do “jeito” de se construir uma outra saúde possível de um homem e mulher, transformados. Hoje devemos, com maior consciência dessa caminhada rea-firmamos a caminhada agora com maior número de parceiros e guiça com a própria saúde pública.

 

 

  1. Homeopatia Popular e solidariedade planetária: uma nova saúde é possí-vel!

 

Descobrimos, na caminhada, aos pouquinhos, que a homeopatia prefigurava uma pauta inaugurada pelo mistério da encarnação do Verbo de Deus, a via do seme-lhante para curar o semelhante. Ele se fez semelhante a nós para nos salvar (Rom. 8,3; Fp 2,7 e Hb 10,10ss): um caminho de cura e de libertação que se anuncia e se materializa também na homeopatia. Mas o caminho do semelhante é também um método e uma mística, a de que a cura e a libertação de todos têm que passar pelo compromisso de cada semelhante – ninguém se liberta sem o outro. O semelhante é curado pelo semelhante – caminho da solidariedade universal. Ou dito de outra forma, a partir da visão cristã assumida pela ABHP: “Ele se fez um de nós. Encontrou numa radical encarnação cósmica o resgate de toda criatura. Também teologicamente o Semelhante cura o semelhante. A homeopatia é, por isso, projeto e método, aceno libertador da morte, celebração do mistério da Encarnação e da Páscoa”.

 

A homeopatia neste sentido é um caminho de transformação das pessoas e da sociedade, instrumento de repensar a relação de todos com tudo e todos. Uma econo-mia solidária, uma nova globalização, a produção associada, enfim, lugares de luta e de vida concreta e cotidiana onde se fabricam politicamente teias de vida e de fraternida-de. Lugar privilegiado ao exercício da cidadania: pensa-se, acolhe-se e age-se tomando em consideração o mais particular, o cotidiano, o pessoal e o prosaico; com as ques-

 

48 • Documento Base – A B H P

 

tões mais gerais, sócio-coletivas e políticas; na perspectiva das questões mais universais, macro-ecológicas, místicas e planetárias. Assim compreendemos a ligação visceral do particular com o geral, da corporeidade com a espiritualidade, da saúde com a política, da homeopatia com a cidadania. Assim nasceu o lema-projeto do nosso Congresso que constitui para nós não um ponto de chegada, mas, sobretudo, um ponto de partida no caminho da transformação: Homeopatia Popular e solidariedade planetária: uma

 

nova saúde é possível!

 

 

  1. A Homeopatia Popular é mesma homeopatia com um coração diferente!

 

Homeopatia popular é a mesma homeopatia com um coração diferente. Marcada na alma por sua origem e identidade popular, vem inspirando pessoas, grupos, comunidades no sonho da Saúde como direito subjetivo e comum, responsabilidade de todos e dever do Estado. Utópica, a homeopatia popular é ferramenta para construir o projeto de outras sociedades: sociedades democráticas, sustentáveis, justas, solidárias, emancipadas, ternas e fraternas. Este projeto têm oponentes: o poder jurídico e político dominante que tem sacrificado toda forma de vida por poder e prepotência, por sede de domínio e por acumulação. Uma outra saúde, por isso, exige a luta política contra todas as forças da morte e da opressão que impedirem a democratização do acesso, da produção, da distribuição e do uso, das conquistas humanas, tecnológicas e aos bens materiais e espirituais que sustentem e promovam a vida, direito inalienável à existên-cia digna e plena! E a solidariedade, entre nosso congressistas e membros da ABHP precisa tornar-se princípio, meio e fim deste projeto. Precisa de que todo(a)s nós, sendo muitos e sem deixar de ser diversos, nos fazermos um SÓ (Solidus, solidarius) de forma a não nos dividir na tarefa de estabelecer a comunhão universal entre a humanidade, a terra, todas as coisas, na perspectiva planetária. A Saúde, dom de Deus e da Terra, é também conquista a ser realizada na história. Nascemos livres, nascemos iguais: o

 

Semelhante cura o semelhante.


A B H P – Documento Base • 49

 

Acerca do conceito Solidariedade Planetária

 

Solidariedade vem da palavra latina: solus, solidus.

 

A palavra solus – do latim: significa . Deve ser entendido,neste caso, como aquilo que é inteiro que não se divide, e portanto sendo um , é sólido.

 

É neste sentido que toda a filosofia e também a teologia tem a idéia da unidade de Deus. A idéia da unidade implica em que aquilo que é um não se divide, não é múltiplo e por isso é eterno, não tem partes. Ao contrário, disso, tudo o que é dividido, tem partes, não é absoluto, não é sólido. Da palavra SOLO vem a palavra SOLUTO ( que se usa na química com as coisas que se dissolvem misturadas… e o termo Ab-solu-to: o que não se dissolve – não está misturado, por que é UM só! Desta idéia de sólido (SÓLIDUS) que se fazem um , ou dizendo de outro jeito, aqueles que sendo muitos não se separam, geram a idéia de solidariedade. Neste caso supõe que é a soma de mui-tos que se fazem um só. Mas é interessante ainda saber que, a idéia de ‘solidariedade’ virou entre nós um substantivo, isso é uma “coisa”. Quando na verdade, o finalzinho da palavra (solidariedade, vem da palavra eidade: que significa a essência do ser só-lido), aquilo que faz com que uma coisa seja ela mesma, o seu princípio gerador de unidade. A solidariedade deixa claro que é um ‘tornar-se’ ou ‘fazer-se’, e por isso que a solidariedade não é uma coisa que exista antes, mas uma essência que foi se formando quando agregou um a um, todos. É isso que nos torna a todos solidus. Tendo sido muitos e dispersos, no fizemos por causa dela UM. Ou seja, trata-se de um‘espírito’ ou melhor dizendo com rigor, é um jeito de ser que torna tudo – debaixo de sua vivência

 

– sólido e UNO. É importante, quando abordamos solidariedade, na homeopatia, neste congresso, compreender que solidariedade não é um fim, um resultado, uma mercadoria comprada feita. Isto é, não é um produto fechado e acabado: é uma cultura, um espírito, uma maneira de ser frágil, dinâmica, viva, que nos ata – enquanto durar seu cultivo – definitivamente tudo e todos, com tudo e o todo. É por isso que, ao colocarmos a dimensão da solidariedade planetária ligada a homeopatia, ela é para nós uma utopia, uma tarefa. A vida no planeta mostra que, infelizmente, o que tem sobrevivido entre nós é a divisão em partes, as divisões, as dissensões que dissolvem, fragmentam, destroem. Ao contrário queremos a criação de um espírito que mantendo a diversidade faça uma UNIDADE. Solidariedade, não é uma coisa única… é a cons-trução de muitos num SÓ. Leonardo Boff insiste que nem Deus quis ser SÓ, quis uma família a Triindade, quis repartir seu amor de unidade e gratuidade com a reconciliação dos homens com Deus, para serem UM, como o Pai e Jesus são UM. É esse o caminho da solidariedade universal, uma meta, um sonho, uma utopia que deve ser começada e inaugurada já, entre nós.

Sobre o Autor

Matheus administrator

Administrador/Desenvolvedor do site.

Deixe uma resposta


1 + cinco =